Bacurau: a voz que ecoa no deserto e reverbera na atualidade brasileira

Obra retrata como as minorias brasileiras têm voz e lutam contra as tentativas de apagamento 

Por: Gabriela Marqueti [1]

Edilaine Felix [2]

“Quem nasce em Bacurau é o quê?” “É gente”. Esse é um dos diálogos que melhor sintetiza o tema abordado de forma brilhante por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles na trama que se passa na cidadezinha fictícia de Bacurau, a oeste de Pernambuco.

A população do interior – sofrendo com a falta de água, comida e remédios, e sendo negligenciada por seu prefeito (interessado apenas na reeleição) – passa a ser assassinada misteriosamente quando turistas e drones aparecem repentinamente em suas terras (que sumiram dos mapas eletrônicos). Nesse futuro distópico, situado “daqui a alguns anos”, a cidade de São Paulo é palco de execuções em praça pública, que são televisionadas ao vivo.

A crítica social do filme é bem explícita. O roteiro toca em temas bem presentes na realidade brasileira – e em maior evidência especialmente desde o período eleitoral de 2018 – como supremacia branca, o genocídio e o complexo de europeu/americano.

Vale a pena destacar três referências importantes: a morte do músico Evaldo Rosa dos Santos, fuzilado pela polícia militar do Rio de Janeiro com mais de 80 tiros; o adolescente Marcos Vinicius da Silva, morto no Complexo da Maré após ser baleado durante uma operação da Polícia Civil – ele morreu usando o uniforme escolar; e a menção discreta, porém presente, ao nome de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em 14 de março de2018  .

O longa venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, foi premiado como Melhor Filme no Festival de Munique e no Festival de Lima, onde também recebeu o prêmio de Melhor Direção. Apesar da aclamação, não foi o filme escolhido para participar da cerimônia do Oscar 2020 – a escolha foi a obra A Vida Invisível, de Karim Aïnouz.

Bacurau trata claramente do apagamento das populações brasileiras que vivem à margem das cidades, e também simboliza o genocídio das populações indígenas, dos negros, da periferia — cada dia mais presente. É o ser humano sendo tratado como muito menos que isso. É gente que é tida como sem valor por seus próprios governantes e por aqueles que se julgam superiores.

Com uma narrativa muito similar a do filme Corra! do cineasta norte-americano Jordan Peele, a obra brasileira merece toda a aclamação que puder receber, especialmente em tempos de censura e cortes na Ancine.

 

[1] Aluno do oitavo semestre de Jornalismo. Monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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