Desventuras de um repórter bêbado no Caribe

Tarcisio Alves da Silva [1]

Carla Tôzo [2]

 

Como um jornalista que passou grande parte da vida se entupindo de tudo quanto é tipo de droga e consumindo álcool até dizer chega (como o protagonista desta obra) consegue escrever uma obra tão poética, romântica, alucinante e emocionante? É o que eu não deixava de me perguntar, enquanto me aventurava ao lado do desiludido Paul Kemp nas 252 páginas de Rum Diary; no Brasil conhecido como Rum: Diário de um jornalista bêbado. O romance, finalizado por Hunther S.Thompson (1937-2005) no final da década de 1960, mas publicado somente em 1998, traz as desventuras regadas a álcool de um jornalista norte-americano que sai de seu país e vai trabalhar no Daily News, em San Juan, Porto Rico.  Um paraíso muito próspero para os americanos sedentos por terras, grana e poder à época, mas que para outros, tratava-se apenas de um fim de mundo; um lugar que não assegura futuro a ninguém, muito menos para a um jornalista que está sempre de ressaca…

A história se passa numa época em que o jornalista ainda era muito boêmio, não austero e metido a intelectual como nos dias de hoje.  Naqueles tempos era possível ir para o trabalho na hora que quisesse; beber enquanto terminava uma matéria e ir direto para um bar quando escurecia, e as portas e janelas da redação se fechavam aos poucos.

Em San Juan, Paul Kemp não apenas bebe, escreve e se lamenta. Também se mete em enrascadas; apanha, vai preso, tem alucinações, ressacas, e se apaixona por quem não deveria. Convive o tempo todo com o temível fantasma da incerteza e do fracasso. Afinal, Kemp pode a qualquer momento entrar para a fila de jornalistas desempregados (cada vez maior hoje em dia, já que há mais profissionais desejando entrar para uma redação, do que redações para os profissionais entrarem), pois o Daily News vive de migalhas e pode deixar de existir a qualquer momento. Se não bastasse apenas isso, os jornalistas americanos em Porto Rico, ainda vivem o tempo todo aflitos com a ideia de uma possível revolução comunista (como a que acontecera na vizinha Cuba, de Fidel, em 1959) ou com uma devastadora guerra nuclear; algo provável para muitos, naqueles conturbados tempos de Guerra Fria (vide o caso da chamada Crise dos Misseis, também em Cuba).

Diário de um Jornalista Bêbado foi adaptado ao cinema em 2012. Estrelado por Johnny Depp (no papel de Kemp), Amber Heard (como Chenault, a paixão proibida do protagonista), Aaron Eckhart (Sanderson, um de seus companheiros de bebedeira naquela “terra de ninguém”) dentre outros. É o segundo livro de Thompson a virar filme, e também a ser protagonizado por Johnny Depp (de quem fora amigo). O primeiro foi Medo e Delírio em Las Vegas, de 1998, dirigido por Terry Gilliam (Os 12 macacos; 1995) c com Tobey Maguire (Spider-man; 2002) e Benicio Del Toro (Traffic; 2001) no elenco.

Hunther S. Thompson é considerado o pai do Jornalismo Gonzo. Um estilo de narrativa jornalístico-literária, que mistura a ficção com a realidade. O jornalista, além de trazer os fatos – que podem ser tanto reais quanto irreais – também se infiltra, participa ativamente da história. Também é autor do controverso Hell’s Angels (1967), outra obra imprescindível do gênero.

Seu romance Diário de um jornalista bêbado é uma prosa imperdível, aventuresca, impressionante e irresistível. O autor nos transporta para o Caribe, com suas praias de areia pálida e águas cristalinas; morros verdejantes, palmeiras e mais palmeiras; condomínios luxuosos (trazidos por investidores ianques, como se quisessem criar uma “Nova Las Vegas”, em Porto Rico) e casinhas de madeira, habitadas por nativos. Também para dentro de uma redação de jornal na década de 1960, com o tec-tec da hoje rara máquina de escrever, os escândalos do chefe, a deliciosa sensação de fim do expediente, ao escurecer… etc. É um romance que certamente desperta uma vontade incontrolável de conhecer as outras obras do inesquecível e inovador jornalista-escritor.

[1] Aluno do oitavo semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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