Mídia especializada analisa o protagonismo internacional do Brasil em pautas socioambientais

Jornalistas discutem a mudança de comportamento do país com o atual governo durante o CBJA 2019

Por Felipe Aranda [1]

Edilaine Felix [2]

O ano de 2019 está segurando um triste e preocupante recorde. A humanidade entrou mais cedo no cheque especial com a natureza. De acordo com a organização de pesquisa Global Footprint Network, a população mundial esgotou, no primeiro semestre, a quantidade de recursos naturais que a Terra conseguiria repor durante todo o ano. Enquanto lideranças ao redor do mundo discutem medidas e limitadores com o objetivo de evoluir a indústria e a economia para uma diretriz mais eficiente, o Brasil está cada vez mais na contramão desse conceito.

Especialistas no assunto se juntaram no Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental (CBJA) no dia 09 de agosto para compartilharem suas visões sobre a perda de protagonismo internacional do Brasil. A conversa, no Teatro da Unibes Cultural, no bairro de Sumaré da cidade de São Paulo, contou com a presença dos jornalistas André Trigueiro, Paulina Chamorro, Ana Carolina Amaral e Carlos Ritll.

Tendências mundiais rejeitadas

O modelo de negócio que gira em torno do setor energético mudou. André Trigueiro, jornalista, professor e escritor, comenta sobre ideias inovadoras que estão sendo colocadas em prática pelo mundo. Na Califórnia, estado dos EUA, todas as novas edificações que forem construídas, devem, por lei, conter painéis solares. Na China, Alemanha e EUA, a atenção está voltada para baterias potentes de baixo custo que podem ser vendidas em lojas de departamento populares e que fornecem energia intermitente, sendo recarregadas pelo sol ou pelo vento. “O Brasil é campeão mundial de vento e insolação. A gente tá vendo um mundo em transformação e a gente precisa emprestar inteligência ao sistema elétrico, reduzir as emissões de gases estufa, reinventar modelos de negócio e gerar emprego e renda em outros setores da economia”, explica Trigueiro.

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O jornalista André Trigueiro. (crédito: Felipe Aranda)

O Brasil passa por um momento em que a máxima é o meio ambiente não caminhar em conjunto com o crescimento econômico. Trigueiro entende que o maior erro para essa visão é os governadores “não ouvirem universidades e pessoas de comunidades que têm projetos e soluções que precisam ser ouvidas”. Para ele, quando se faz um projeto bem estruturado, alinhado a setores com interesses em comum, o investimento financeiro acontece.

Tema e imprensa enfraquecidos

A Rio-92, como ficou conhecida a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento que aconteceu em 1992 no Rio de Janeiro, foi um ponto de mudança para o Brasil e para o mundo quanto a debates e ações sobre problemas ambientais. Desde então, o Brasil foi sempre associado a essa agenda. Carlos Ritll, secretário-executivo do Observatório do Clima, lembra que, em meio a confusão causada pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Michel Temer, presidente que estava em atividade em 2017, deixou uma boa impressão na agenda climática global quando ratificou os termos do Acordo de Paris, dando a eles o mesmo peso que leis. “Na hora em que a gente chega em 2018, tudo isso cai por terra. Inclusive, corremos um risco no ano passado quanto a saída do Acordo de Paris. Isso repercutiu muito mal, mostrou um sinal trocado”, analisa Ritll.

Outras atitudes que contribuíram para a descaracterização do Brasil foram as ameaças do atual governo Bolsonaro em extinguir o Ministério do Meio Ambiente e retirar o país da oferta de sediar a COP-25. “Ocorreu um completo desmonte da nossa governança socioambiental para enfraquecer a participação da sociedade civil em tomar decisões relacionadas ao meio ambiente”, complementa o secretário.

Ana Carolina Amaral, jornalista e secretária da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, observa que, ao mesmo tempo em que o Brasil perde o protagonismo internacional por conta da atuação do governo federal, o país continua ativo em discussões paralelas por meio de outros agentes.

A Climate Week, um evento sobre discussões climáticas, defendida pela Prefeitura de Salvador/BA após ser alvo de corte pelo Ministério do Meio Ambiente e também a visita do Ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, para auditar com ONGs promessas realizadas pelo presidente Bolsonaro, são indicativos de que o país possui credibilidade e entendimento sobre assuntos ambientais. “Tem essa diversidade de representação que vai sendo chamada para falar pelo país nesse momento de redução do protagonismo do Estado”, conclui a jornalista.

Produzir conteúdo e realizar a cobertura de assuntos ambientais são hoje desafios ainda maiores. A jornalista Paulina Chamorro comenta sobre a redução no quadro de servidores do IBAMA e do ICMBio que atuam em campo, além da percepção de afastamento deles dos contatos com a imprensa. “Você não consegue saber do servidor que está passando por um imenso perrengue, sofrendo ameaças também, qual é a real situação dele no local.” Como alternativa, Paulina conta que passou a trabalhar com parcerias dentro e fora do país, atuando como uma rede de jornalistas. “A gente vai construindo reportagens a partir de parcerias com repórteres que estão acompanhando a situação em campo”, complementa a jornalista.

O Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental que, desde 2005, vem sendo realizado a cada dois anos, somou quatro anos desde a sua última edição. A impossibilidade de realizar o CBJA 2017 fragilizou a comunidade socioambiental do país. Com o retorno em 2019, em um período de muitas dificuldades para a frente, o congresso ganha a admiração da imprensa especializada. “Esse é o congresso mais importante, na minha opinião, da história desse evento. Não pelos conteúdos propriamente, eles são relevantes, mas pelo fato de estarmos juntos, conversando, trocando informações e contatos, neste momento da história do Brasil”, finaliza Trigueiro.

 

[1] Aluno do sexto semestre do curso de Jornalismo e monitor da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

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