King Crimson vem ao Brasil pela primeira vez em 50 anos

Destacamos cinco álbuns essenciais para entender e apreciar a banda cinquentenária

Por Gabriel Castilho [1]

Edilaine Felix [2]

king crimson foto abreA formação atual do grupo tem três bateristas que tocam simultaneamente. Foto: Spike Mafford

Completar cinco décadas de carreira não é tarefa fácil e Robert Fripp sabe disso: o músico atravessou diversas dificuldades até poder comemorar o aniversário de meio século de sua banda, King Crimson, pioneiros do rock progressivo. No mês de outubro, o conjunto trará a festa para o Brasil, se apresentando no Espaço das Américas e, dois dias depois, fechando o Palco Sunset no Rock in Rio.

A celebração também inclui uma turnê internacional de 50 shows, um documentário contando a história da banda com imagens de arquivo e entrevistas (acompanhado de trilha sonora composta pelo grupo), box sets novos e a disponibilização de seu extenso catálogo nos serviços de streaming ainda em maio.

O grupo foi originalmente constituído em Londres, no ano de 1969, e teve sua formação mudada constantemente. Atualmente, o King Crimson é um octeto (ou “quarteto duplo”) composto por Robert Fripp, Mel Collins, Tony Levin, Pat Mastelotto, Gavin Harrison, Jakko Jakszyk, Bill Rieflin e Jeremy Stacey.

Ao todo, além de inúmeras compilações e álbuns ao vivo, a banda lançou 13 discos de estúdio: o primeiro foi em 1969 e o mais recente em 2003. Como a música se transforma continuamente, o King Crimson se adaptou e virou uma espécie de camaleão musical, incorporando as influências de estilos como jazz, new wave, hard rock e rock industrial ao prog nesses últimos cinquenta anos.

Com uma carreira e discografia tão extensa, separamos cinco álbuns que são importantes na trajetória da banda: momentos de transição de gêneros e definição de outros, e as diversas reinvenções do King Crimson ao longo da história.

  • In the Court of the Crimson King

Lançamento: 10 de outubro de 1969.

Gravadora: Island Records (Inglaterra); Atlantic Records (EUA).

Formação: Robert Fripp (guitarra), Michael Giles (bateria e percussão), Greg Lake (baixo e vocais), Ian McDonald (teclados e instrumentos de sopro) e Peter Sinfield (letras).

Duração: 42 minutos.

Antes de bandas aclamadas do rock progressivo como o Pink Floyd, Yes e Genesis terem lançado discos que viriam a ser essenciais para o gênero, o álbum de estreia do King Crimson definiu a cena prog que aconteceria na década seguinte. As composições introduzem longas passagens instrumentais que fazem com que as músicas acresçam e decresçam em questão de minutos, variando entre o silêncio (Moonchild) e o caos total (21st Century Schizoid Man).

A rica e bem executada instrumentação é elevada pela ótima produção e mixagem: todos os instrumentos são valorizados e saltam aos ouvidos. Cada músico contribui com performances complexas para criar um só produto que exala química: seja pelos longos riffs da guitarra de Fripp, os solos de sax, flauta e clarinete de McDonald, a bateria de Giles que ocasionalmente remete uma marcha, ou a poderosa voz de Lake.

Pontos como a crueldade da guerra do Vietnã (que ainda estava acontecendo durante a gravação do disco) e a falta de esperança gerada pelo conflito foram abordados em canções como 21st Century Schizoid Man e Epitaph, enquanto I Talk to the Wind apresenta um lado mais abstrato e existencialista do compositor Peter Sinfield.

Apesar de ter sido recebido com críticas mistas inicialmente, o álbum chegou à quinta colocação das paradas de sucesso britânicas em novembro de 1969 e, nas décadas seguintes, foi consolidado como um clássico, com sua influência tocando artistas ao redor do mundo.

  • Islands

Lançamento: 3 de dezembro de 1971.

Gravadora: Island Records (Inglaterra); Atlantic Records (EUA).

Formação: Robert Fripp (guitarra, mellotron e harmônio), Raymond “Boz” Burrell (baixo e vocais), Mel Collins (saxofone, flauta e flauta baixo), Ian Wallace (bateria e percussão) e Peter Sinfield (letras e produção).

Duração: 42 minutos.

Em 1971, um ano repleto de hits, o Rolling Stones lançava Sticky Fingers e o Led Zeppelin trazia seu quarto álbum de estúdio ao mundo – um dos mais vendidos de toda a história. Na Alemanha, o influente krautrock – gênero que combinava música clássica e jazz com rock psicodélico e progressivo (entre outros) – era marcado pelo Tago Mago do Can e o disco de estreia do Faust, ambos gerando menos sucesso comercial, mas recebendo grande apreciação dos críticos.

O King Crimson se encontrava no meio de tudo isso. Boz, Collins e Wallace tinham mais interesse pelo blues, enquanto Sinfield se atraía pelo jazz mais calmo. Já Fripp queria experimentar com a guitarra e fazer música mais agressiva, que estava mais relacionada com o hard rock e o recém-nascido heavy metal.

Um pouco de tudo foi encaixado dentro de Islands, mas a influência erudita é predominante – é essencialmente um álbum de jazz combinado com a lógica e estrutura do rock progressivo. O caráter orquestral da música é envolvido em misticidade, tanto nas letras quanto nas composições que utilizam o oboé, piano e a flauta extensivamente.

Fripp traz sua guitarra distorcida e mellotron nos pontos mais intensos do disco, como em Sailor’s Tale e The Letters. O fascínio que a maioria do grupo tinha pelo blues é evidenciado em Ladies of the Road. Prelude: Song of the Gulls é um breve interlúdio de música clássica cuja serenidade prepara o ouvinte para um dos pontos de interesse do disco: a longa e tranquila faixa-título.

Após o lançamento do álbum, as divergências criativas dessa formação resultaram em mais uma separação de grupo. Islands funciona como uma ponte entre duas eras da banda: uma focada na música erudita e outra mais agressiva e experimental. Em 1972, Robert Fripp recrutaria mais um quarteto para atravessar tal ponte.

  • Larks’ Tongues in Aspic

Lançamento: 23 de março de 1973.

Gravadora: Island Records (Inglaterra); Atlantic Records (EUA).

Formação: Robert Fripp (guitarra, mellotron e piano elétrico), John Wetton (baixo, vocais e piano), Bill Bruford (bateria, timbales, cowbell e bloco sonoro), David Cross (violino, viola, mellotron, piano elétrico e flauta) e Jamie Muir (percussão, bateria e objetos).

Duração: 47 minutos.

O rock progressivo estava em alta. No intervalo entre o lançamento de Islands e o de seu sucessor, algumas obras-primas do gênero tinham sido lançadas, como Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Close to the Edge (Yes) e Future Days (Can). Fripp não queria fazer mais do mesmo e essa nova, poderosa formação não permitiria isso.

O teor erudito dos discos anteriores é minimizado em Larks’ in Tongues of Aspic, pois o álbum foca num estilo mais experimental e abrasivo. David Cross ainda traz o violino, que se encaixa muito bem em todas as faixas, mas brilha especialmente na melancólica Exiles, ao lado da profunda voz de Wetton.

A guitarra de Fripp volta com importância e peso que não era ouvido desde o disco de estreia. Já é possível detectar uma influência do heavy metal, com acordes potentes, solos frenéticos e até mesmo a implementação de ruídos nas músicas. Aqui, finalmente, o músico começa a experimentar com a guitarra da forma que ele realmente desejava.

O álbum é movido pelos mais diversos ritmos – principalmente pela excêntrica percussão do improvisador Jamie Muir que é como um baú de sons, quase sempre difíceis de identificar. Ele vai além do convencional: no seu kit há, entre tantas coisas, um serrote musical, chocalhos, brinquedos e objetos variados em geral. A combinação da extravagância de Muir com as fortes performances de Bruford na bateria cai como uma luva.

A desorientadora Easy Money é um dos melhores exemplos de como a banda encara o ritmo neste disco: o baixo de Wetton pula, enquanto Muir acrescenta sua biblioteca de percussão. Já o violento tom da guitarra de Fripp ataca a faixa, frequentemente junta do impacto oferecido pela bateria de Bruford nos momentos mais intensos. Vários ritmos são adicionados à uma só música, mas não brigam por espaço. Eles se entendem.

Larks’ in Tongues of Aspic é uma abertura para a nova trilogia de um novo King Crimson. Se desprende de determinadas influências e agarra outras, mas, acima de tudo, o conjunto dá um enorme passo à frente.

  • Red

Lançamento: 6 de outubro de 1974.

Gravadora: Island Records (Inglaterra); Atlantic Records (EUA).

Formação: Robert Fripp (guitarra e mellotron), John Wetton (baixo e vocais), Bill Bruford (bateria e percussão).

Duração: 40 minutos.

Quantas coisas podem acontecer para uma banda em pouco mais de um ano? Entre os lançamentos de Larks’ e Red, o King Crimson fez uma turnê, lançou outro álbum (Starless and Bible Black) e viu sua formação mudar novamente. Muir e Cross se despediram do trio remanescente.

Fripp perdeu o encanto pela indústria musical como um todo. Para ele, o prog britânico estava morrendo e começando a ficar estagnante ainda em 1974. Essa opinião foi basicamente ridicularizada por fãs de rock e críticos da época.

A gravação de Red foi feita em mais um momento de incerteza. O resultado? Um álbum que compete diretamente com In the Court of the Crimson King pelo posto de melhor disco da banda.

As ideias dos dois discos anteriores foram reajustadas e expandidas. Se antes a experimentação dos integrantes envolvia improviso e utilizar uma paleta de sons mais diversa, em Red o grupo transforma o hard rock em algo grandioso, colocando o foco na tríade clássica dos instrumentos de rock: guitarra, baixo e bateria, mas sem se limitar a ela, já que as influências do jazz voltam sob uma nova e extravagante ótica.

Como é de se esperar da banda, alguns dos destaques em Fallen Angel e One More Red Nightmare são os instrumentos de sopro tocados com entusiasmo. Uma das maiores potências do álbum aparece em faixas como Red e Fallen Angel: a distorção da guitarra presente tanto nos acordes quanto nos riffs que parecem ser movidos à interferência sonora.

Starless é a faixa que fecha o disco. Mais do que isso, ela fecha o King Crimson dos anos 70, e faz isso como nenhuma outra poderia: os incríveis, variados tons de guitarra; a atmosfera orquestral criada por um único mellotron; os gritos passionais de Wetton ao lado de suas aceleradas linhas de baixo; a percussão diversa e intrigante; o caos controlado dos saxofones… Starless é uma perfeita despedida.

Red é o ápice da grandiosidade que a banda apresentou nos seus primeiros cinco anos. Depois do lançamento, Robert Fripp anunciou o fim do King Crimson de uma vez por todas.

Em 1975, a guerra do Vietnã acabou oficialmente. O Pink Floyd lançou Wish You Were Here. Depois disso, os lançamentos importantes de prog se tornaram cada vez mais escassos e obscuros. Ficava mais difícil de discordar da declaração de Fripp sobre o gênero. A década chegou ao fim, junto com grande parte do interesse pelo estilo. Mas a ascensão de outros gêneros fez com que a banda voltasse em uma nova década.

  • Discipline

Lançamento: 22 de setembro de 1981.

Gravadora: E.G. Records (Inglaterra); Warner Bros. Records (EUA).

Formação: Robert Fripp (guitarra e sintetizador para guitarra), Adrian Belew (guitarra, sintetizador para guitarra e vocais), Tony Levin (Chapman stick e baixo), Bill Bruford (bateria e tambor de fenda).

Duração: 38 minutos.

A música dos anos 80 trouxe uma grande guinada no que interessava o mainstream. A explosão de Michael Jackson com Thriller; o synthpop do Tears for Fears e Depeche Mode; as inúmeras bandas de “hair metal”; os grandes hits de new wave por Men at Work e Blondie. Os grupos de prog da década de 70 estavam migrando para estilos mais acessíveis, com uma pegada pop, como o AOR (o “rock adulto”).

A cena alternativa da década viu um crescimento de uma enorme variedade de gêneros, entre eles o noise rock, pós-punk, thrash metal e hip-hop. E um pouco de new wave. Apesar dos hits de rádio, o new wave também era um gênero “estranho” e parte do material caiu em uma certa obscuridade. O King Crimson voltava de seu hiato e seu novo integrante conhecia essa “esquisitice” de perto.

Belew pode ser considerado o coração de Discipline. Depois de sua colaboração com os Talking Heads em 1980, o músico levou sua marca registrada ao King Crimson: a guitarra processada por um sintetizador, ouvida, sobretudo, nos riffs de Elephant Talk e Indiscipline. As performances vibrantes de Adrian não se limitam só ao instrumento, já que ele também interpreta as letras com paixão e empolgação.

A banda trabalha com polirritmia neste disco, que é mais focado nos grooves. Eles são criados, principalmente, pelo Chapman stick (instrumento xodó de Tony Levin) e a percussão quase tribal de Bruford. As melodias são repetidas extensivamente e rapidamente, formando uma atmosfera hipnotizante, como em Frame by Frame.

Apesar de estar fazendo seu retorno após seis anos sem lançar álbum algum, com uma nova formação e novas influências, o King Crimson se mostra confortável e desafiador ao levar um dos principais gêneros da época por um caminho mais expansivo e progressivo.

A banda ainda faria uma trilogia a partir deste disco na década de 80 (Discipline, Beat e Three of a Perfect Pair) até pausar suas atividades e retornar renovada em 1995 com THRAK, em 2000 com The ConstruKction of Light e em 2003 com The Power to Believe, que fecha uma discografia lendária… mas somente enquanto Fripp não volta ao estúdio.

 

[1] Aluno do sexto semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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