O homem por trás do Rapper

Seu nome de artista remete a infância, época em que costumava colecionar recortes de revista e motos de brinquedo. Dee, era apenas um apelido dado por sua família, porém hoje, é como ele quer ser reconhecido pelo mundo

Texto e fotos: Tiago Luan Silva de Freitas [1]

Carla Tôzo [2]

 

Aos 25 anos, como poeta, escreve em palavras de concreto o que parece apenas fluir em sua mente, já como rapper, canta sua realidade de fatos complexos e muitas vezes incertos. Diego Henrique de Souza faz de sua história arte e da arte o seu futuro.

Como em um ritual, a fumaça de cigarro no ambiente sela um pacto de confidência entre jornalista e personagem, dando início a conversa em sua casa na Vila Joaniza, lugar onde o jovem músico, de cavanhaque ralo, olhos pequenos e pele negra, nasceu e ainda vive.

Dee, ansioso por sua estreia, queima a largada e vem ao mundo com apenas 6 meses de gestação e em seu berço encontrar muita música, já que seu pai, Nilson Paula, motorista de microônibus e trompetista de fanfarra, fascinado por discos, entrega à ele um tesouro: seu acervo de músicas em vinil. E assim, o garoto colecionador de recortes,  tem contato com diferentes trilhas, desde o samba, o sertanejo e o blues à música erudita. Seus ouvidos, desde então, são ensinados a calcular acordes e métricas. Sua mãe, Edimeia de Oliveira, também foi uma grande influência, acostumado a escutá-la cantar na igreja evangélica IBNA (Igreja Batista Nova Aliança) e em várias bandas como backing vocal – uma dessas é a banda “Raça Negra”, que fez muito sucesso nos anos 90 com músicas como: Cheia de Manias, Cigana e Maravilha-. Já o Rap, é uma herança da escola, quando pela primeira vez em 1997 escutou o CD “Sobrevivendo ao Inferno”, do grupo, Racionais Mc’s. “Foi magico mano, eu escutava um monte”. Por um instante ele retoma a euforia da infância enquanto fala “eu sempre fui muito curioso, eu gostava de ver os clipes e eu queria ser igual, olha que loco, eu queria ta na cena”.

interno 1

Mesmo tímido, o garoto que “travava quando ia cantar na igreja”, sempre gostou do palco, que para ele era um novo mundo cheio de possibilidades. “Quando eu subo no palco não vejo ninguém, essa sensação de passar a sua verdade é muito louca”.  Seu primeiro show foi aos 8 anos com seu grupo de pagode, formado pelos primos, Filiph – que hoje também é seu parceiro musical, conhecido como Filiph Neo -, Jefferson, o amigo Rodrigo e seu irmão Dennys, quando nenhum deles tinha instrumento. Neste dia seu pai o presenteou com um repique que ele “carregava em sacolinhas de plástico do mercado”. Com 16 anos “eu falei é isso que eu quero pra minha vida” dando origem ao quarteto de R&B gospel – ainda com a mesma formação familiar – chamado, LAEL, que significa: Consagrado a Deus. E o que era apenas brincadeira de criança vira sua vida. A partir dali a música nunca mais seria um hobby.

No próprio mundo, quando cai, quem te levanta?”, esse é um dos trechos escritos por Dee e que condiz com sua escolha de vida, já que há 3 anos ele vive apenas dos ganhos da música. Dee sempre cantou com outros artistas, fazendo dobras em partes de suas letras ou como parceiro em eventos e assim, junto com trabalhos paralelos, como o de vendedor no shopping, captava sua renda. Em 2012 ele começou a cantar em shows feitos pelos rappers Kamau, Slim Rimografia e Fernandinho Beat Box, que já possuem uma carreira consolidada no rap; foi nesse momento que ele decidiu trabalhar apenas com música.

O espírito livre do artista, desejava novos vôos, cantar as verdades de outros rappers não chamava sua atenção. Mais uma vez acompanhado de seu primo, Filiph Neo, e dos rappers, Willian Simões e Rennan Saman, Dee, embarca em uma nova viagem de rumos totalmente desconhecidos, um coletivo de rap chamado “5pra1” projeto em que ele trabalha atualmente. Este é um trabalho independente de 4 cantores que estão buscando espaço, e como todo novo empreendimento, mesmo com muito esforço, as vezes, falta a grana, “mano é complicado”, ele desabafa, “as vezes você fica muito sem tempo, fazendo o corre das músicas, mas não tem show, e ae como se manter?”, e essa incerteza deixa as coisas ainda mais difíceis, “eu posso me manter com 600 reais, como tem mês que eu posso me manter com 50”.

O grupo que já se apresentou no programa de TV “Manos e Minas” da TV Cultura, comandado, pelo também rapper, Max B.O, lançou seu primeiro trabalho, um EP (formato independente de produção com menor número de faixas) denominado “Kush & Garotas” e o clipe da música “Bombastic”, faixa principal do EP, porém mesmo assim ainda não obteve um grande retorno financeiro.

Dee, acredita no caderno, assim como Narciso no espelho, ele não se preocupa com as impressões do mundo sobre seu trabalho e escreve para si o que acredita. “É uma profecia de si mesmo. Eu não olho o que aquele som pode me render, eu olho pro meu trampo, a minha perturbação”, seja escrevendo coisas que só ele entenda, ou que seja sensível à outras pessoas, o resultado para ele é apenas uma consequência. Para ele ser real é uma das grandes dificuldades do artista. “As pessoas não ouvem uma música só por ouvir, elas ouvem porque também tem vontade de dizer e fazer algo. Quanto mais degradante a música, mais a massa consome”. Sair deste lugar comum é o principal desafio para um músico, já que, fazer o que gosta é muito bom, mas ganhar dinheiro é necessário para se manter e permanecer com o trabalho vivo, e para isso o público precisa escutar.

[1] Aluno do oitavo semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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