Audiogame: conheça os jogos acessíveis para deficientes visuais

“Audiogames são importantes para que pessoas com deficiência visual também possam jogar, mas esse público também precisa começar a ter mais acesso a jogos que são feitos para todos”

Texto: Caio Britto  [1]

Carla Tôzo [2]

 

O e-sports e os jogos virtuais são uma febre pelo mundo. Em 2018 um estudo revelou que o Brasil possui o 3° maior mercado de jogadores do mundo, chegando a 60 milhões de pessoas consumindo games. Esse meio de entretenimento está se expandindo também para os deficientes visuais, os audiogames, estão sendo desenvolvidos em diversas plataformas e pode ser um modo de inclusão para esse público.

A produção desses jogos não é de hoje e existem clássicos como Pac-man e Super Mario Bros, em suas “versões” em audiogames. Mas com novos recursos os games ganharam embreagens para fugir da tônica atual que foca em gráficos apurados, para construir uma narrativa através apenas do áudio, trazendo uma ótima qualidade de sons para guiar seu player pelo jogo. A história precisa ter uma ótima qualidade de ambientação de som para o jogo fluir, explica Jason Piloti, desenvolvedor de jogos e técnico de audiovisual do IFRS. “O foco no desenvolvimento de audiogames, além da narrativa, gamedesign e mecânicas é o audiodesign em si. É através dele que o jogador irá conseguir compreender e interagir com o jogo e expressar todas as etapas contidas no desenvolvimento. Ter uma vasta gama de efeitos sonoros, trilhas, vozes bem mixados e masterizados aliados a uma boa mecânica de jogo fazem a diferença no produto final, tornando o jogo engajador e atrativo ao usuário.”

As etapas que Jason conta se assemelham a uma produção de um álbum de música. Podemos ver isso como uma experiência diferente também para um desenvolvedor de games, fazendo o designer de áudio ganhar um papel importante na construção do jogo.  “O desafio em si no tocante ao desenvolvimento não é a ferramenta, mas o modo em que a experiencia de áudio é centrada no usuário.”, destaca Jason.

No Brasil existem desenvolvimentos desses jogos, como o Breu, jogo desenvolvido pelo Studio Team Zeroth, de Salvador, além do Nebula, jogo desenvolvido pela Gray Company, de Porto Alegre. Na atualidade pode ser encontrar diversas tecnologias e ferramentas para auxiliar na produção dos jogos, como conta Jason: “Atualmente temos no mercado duas grandes engines de desenvolvimento de jogos (Unity e Unreal) que suprem as demandas de desenvolvimento tanto de jogos convencionais quanto de audiogames. Quando tratamos de audiogames especificamente, é comum utilizar-se de middlewares de áudio (Fmod e Wise). Esses middlewares criam uma ponte entre a engine do jogo (programação, mecânica e gráficos) e o áudio em si, ou seja, é possível trabalhar todo o processo de áudio design nestes middlewares independente da programação do jogo.”

Para jogar o audiogame, o jogador precisa somente de um bom par de fones para entrar nessa aventura digital. “Assim a utilização de fones de ouvido é recomendada para uma melhor imersão. Alguns jogos como Audio Defence fazem uso da tecnologia do acelerômetro e giroscópio do dispositivo móvel, outros como Blind Samurai e Blind Tales: Audio Adventures utilizam o recurso touchscreen do smartphone.”, ressalta.

A inclusão através dos jogos

O audiogame pode ser uma ferramenta de inclusão para os deficientes, que conseguem uma nova forma de interagir com o mundo e se entreter em qualquer local. Ruhan Gonçalves explica como os jogos virtuais entraram na sua vida. “Conheci audiogames depois de virar uma pessoa com deficiência visual. Um amigo me apresentou uns três audiogames simples e depois deles acabei indo atrás de outros.” No mercado atual, os jogos acessíveis são tratados como um nicho, separando os jogadores, algo que não agrada os deficientes visuais.  “É importante que empresas que não desenvolvem jogos pensando apenas no público com deficiência visual, incluindo empresas grandes, comecem a pensar mais na acessibilidade de seus jogos. Isso pois audiogames são importantes para que pessoas com deficiência visual também possam jogar, mas esse público também precisa começar a ter mais acesso a jogos que são feitos para todos. Eu já li sobre iniciativas de colocar um pouco de acessibilidade em alguns jogos de luta e já até cheguei a testar, nos jogos Skull girls e Injustice, mas isso ainda acontece extremamente pouco.”, chama atenção Ruhan.

Mesmo sendo uma ferramenta de inclusão maioria dos jogos disponíveis tem com idioma o inglês, dificultando a experiência que alguns jogadores que não entendem a língua. “Audiogames no geral são feitos para pessoas que sabem bem inglês, pois muitos deles não chegam a ser traduzidos. Acredito que o que falta a princípio é o crescimento desse tipo de jogo para que com o tempo mais audiogames em português estejam disponíveis”, conclui Ruhan, apontando um ponto que pode melhorar na produção desses jogos. Podemos enfatizar também em um desenvolvimento para audiogames educativos para fomentar a tecnologia para crianças a esse mundo dos jogos online.

A tecnologia no cotidiano dos deficientes visuais

A tecnologia assistiva está no cotidiano dos deficientes visuais, mas não tem tanta publicidade e informações na sociedade, a tecnologia assistiva são inovações e recursos que ajudam os deficientes em diversos setores da vida como conta Ruhan: “Geralmente utilizo tecnologias direto no iPhone devido ao fato de estar sempre comigo, diferente do computador. A principal atualmente é o Seeing AI, um aplicativo gratuito da microsoft que contém diversas funcionalidades, como a leitura de textos, reconhecimento de imagens usando inteligência artificial, uma ferramenta que consegue me ajudar a saber se a luz está acesa ou apagada, dentre outras.”

A maioria dessas tecnologias estão implementadas em aplicativos, então com um smartphone na mão a facilidade aumenta ainda mais, há diversos de aplicativos que estão disponíveis diretamente para esse público. A respeito, Ruhan fala um pouco sobre seu dia a dia com a tecnologia: “Acho interessante citar o be my eyes, também gratuito, que serve para conectar pessoas com deficiência visual a voluntários que tem o aplicativo, em vídeo chamadas rápidas. Como há muito mais voluntários que pessoas com deficiência visual no aplicativo ninguém fica sobrecarregado. Por fim uso um aplicativo que reconhece dinheiro, para que possa ter um melhor controle financeiro.”

Devemos sempre olhar para essas iniciativas que fazem a sociedade se unir e reunir para um bem-estar mutuo entre todos. Se você tem interesse em procurar pelo audiogames existem diversas plataformas para encontrar os jogos pela internet, atualmente o site audiogames.net hospeda diversos gêneros dos jogos que estão disponíveis na Apple Store e Google Play também há diversos jogos para esse público.

[1] Aluno do oitavo semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

 

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