Escritores e como narrar (quase) tão bem quanto eles

Por Tarcísio Alves  [1]

Carla Tôzo [2]

  “Perfis e Como Escrevê-los” é uma antologia que reúne doze textos concisos, indubitavelmente atraentes ao leitor, que nos ensina na teoria e na prática, o modo de se estruturar, aperfeiçoar e trazer o essencial para um bom perfil.  Os textos nos mostram tudo o que um perfil – este estilo de narrativa jornalístico-literária, popularizada nas décadas de 50 e 60 em revistas como Esquire e The New Yorker, pelas mãos de gênios como Gay Talese, Truman Capote e Tom Wolfe – precisa para que se torne inesquecível na mente dos leitores, e acima de tudo, para que mude para sempre suas vidas.

Já na introdução da obra, o autor Sérgio Vilas Boas – pesquisador e professor universitário, jornalista formado pela UNI-BH, ganhador de prêmios como o Jabuti e o Fiat Allis de Jornalismo Econômico – contextualiza o perfil. Faz diversas reflexões a respeito do estilo, e dá dicas de como construí-lo.

Diferentemente das biografias em livro, em que os autores têm de enfrentar os pormenores da história do biografado, os perfis podem focalizar apenas alguns momentos da vida da pessoa. É uma narrativa curta tanto na extensão (tamanho do texto) quanto no tempo de validade de algumas informações e interpretações do repórter. (página,13)

No decorrer do livro – que é tanto curto, quanto bastante emocionante e memorável – Sérgio Vilas Boas nos presenteia com doze ótimos perfis de notáveis escritores como João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Lya Luft, Cristovam Tezza, Manoel de Barros, e ninguém menos que o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982, Gabriel García Márquez.  Para cada um desses clássicos autores, Vilas Boas dá a oportunidade para que botem a boca no trombone e falem de temas como política, filosofia, e claro, sobre as sérias crises criativas – famoso “bloqueio” – pelas quais muitos dedicados autores já passaram, passam – ou passarão, algum dia na vida.  Vilas Boas também relembra a infância de alguns, como a de Lya Luft (Cyberavó do Ancoradouro), que quando menina já era uma sonhadora de imaginação quase infinita, falava pouco e era muito atenta aos mínimos detalhes, diferente das outras crianças. Ou foca em períodos conturbados na vida de alguns dos personagens, como por exemplo, Ferreira Gullar e a perda de vários de seus familiares – para as drogas, para a morte, ou por abandono – e as peripécias pelas quais teve de passar durante os regimes militares na América Latina nos anos de 1970.  Tal como declara o poeta, em seu perfil, “Os ossos de Ribamar”:

“Dois filhos meus enlouqueceram. Só por causa do meu exílio não deve ter sido. Mas se eu estivesse por perto, talvez as coisas pudessem ser diferentes”

“Os companheiros de exílio, que estavam em outros países, me diziam: é bom você não vir pra cá, senão cai o governo. Porque era eu ir pra um país e vinha um golpe militar…” (página, 92).

Um ponto que chama a atenção nesse livro é o esforço do autor em se aprofundar de vez na vida de cada perfilado. Primeiro porque teve de viajar – e muito – para se encontrar com seus personagens. Para o perfil de Gabriel Garcia Márquez, por exemplo, Vilas Boas teve de ir a Cartagena das Índias, na Colômbia, onde o escritor de Cem Anos de Solidão vivia com seus familiares. Para fazer o de Paul Auster (Mr. Invisível do Brooklin) teve de se manter em Nova York, E.U.A. O restante dos perfis foi composto em solo brasileiro, mas nem por isso, Sérgio pôde se manter parado. Encontrou-se com os autores em várias regiões diferentes do país: João Ubaldo e Gullar no RJ; Lya Luft e Assis Brasil, no RS; Manoel de Barros, em Campo Grande – onde o poeta, encantado pelo pantanal, viveu durante maior parte da vida – e assim por diante.

Outro fator que mostra o desejo de Sérgio Vilas Boas em conhecer profundamente seus escritores-personagens, é sua incansável pesquisa. Afinal ele notavelmente leu os escritos – ou, pelo menos grande parte deles – dos autores retratados em seu livro. Pois fez questão de trazer breves análises:

Parece unânime que nesse romance – Viva o povo brasileiro (1984) – João Ubaldo tenha tentado compreender a formação do Brasil. Trata-se de uma espécie de distintivo ficcional desse processo formador. Valendo-se do recurso fantástico de uma alma que reencarna em habitantes de Itaparica, Bahia – do tempo da colonização da ilha pelos holandeses (1647) até a ditadura militar, já por volta do final do governo Geisel (1977) -, João Ubaldo desfia em estilo barroco vários momentos decisivos da história do Brasil – Independência, Guerra do Paraguai, Proclamação da República, Estado Novo, etc. (página, 54).

Um destaque que certamente há de ser apontado é o último dos doze perfis deste livro: Una Cueva en Cartagena, do mestre “Gabo”. Este perfil, Sérgio Vilas Boas, a exemplo de Gay Talese e seu revolucionário Frank Sinatra está resfriado (1965) escreveu sem que precisasse entrevistar o autor de obras tão marcantes, excepcionais e populares como O Amor nos Tempos do Cólera, Crônica de uma morte Anunciada e Cem Anos de Solidão (sua obra mais apreciada pela critica, além de ser também a mais conhecida e vendida mundialmente) pois Garcia Márquez raramente concedia entrevistas. Por isso, Vilas Boas conversou com irmãos de Gabriel, e com diversos colombianos apaixonados por suas obras e orgulhosos por serem da mesma terra – e vizinhos – de um dos maiores escritores da história.

Sérgio Vilas Boas mostra em “Perfis e como Escrevê-los” que escritores também têm algo a dizer, e devem sempre ser ouvidos. Eles mesmos possuem boas histórias, apesar de viverem criando outras. Eles mesmos constituem adoráveis, influentes e notáveis personagens, mesmo que passem a vida criando outros. Como escreve Mario Vargas Llosa, também ganhador do Prêmio Nobel, em frase destacada por Vilas Boas logo no início de seu livro e retirada da obra Cartas a un novelista:

    “O narrador é um ser feito de palavras, não de carne e osso, como os autores”.

[1] Aluno do sétimo semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

 

 

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