Novos Escritores Brasileiros

Por conta da crise editorial, para muitos autores, a melhor opção é publicar livros por contra própria

Por Amanda Sprocati [1]

Carla Tôzo [2]

Quando se fala em literatura, os primeiros livros que vem à mente, majoritariamente, são estrangeiros. O Brasil tem muitos escritores renomados, mas ainda há algumas pessoas que não valorizam a literatura brasileira, deixando-os assim esquecidos.

Não há dados específicos sobre livros brasileiros, mas segundo um estudo realizado pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro em 2015, na quarta edição da Pesquisa Retratos da Leitura, 54% dos alfabetizados não lê contos, poesias e romances por vontade própria. Foram considerados leitores apenas as pessoas que leram algum livro nos três meses anteriores à pesquisa.

Com a crise editorial enfrentada pelas maiores editoras do País, em 2019, pelo fato do hábito de leitura ter mudado muito ao longo dos anos, a saída, para os novos escritores brasileiros, é lançar seus livros por conta própria, sem parceria com editoras e livrarias. Bruna Lallesk Ripar, 22 anos, é uma escritora brasileira formada em Psicologia, que começou sua carreira há pouco tempo e lançou seu segundo livro recentemente. A seguir, ela conta como é passar por essa crise logo agora.

AICom Você lançou seu primeiro livro por um site para escritores autônomos, e o segundo foi por conta própria. Sentiu alguma diferença nesse processo?

Bruna – Muita. No primeiro caso não houve um investimento financeiro da minha parte como houve no segundo, de modo que Inesquecível atingiu um número de vendas muito maior do que Deixe-me em paz. Eu diria que com a ideia de viver da escrita mais amadurecida, como já estava no lançamento de Inesquecível, o investimento financeiro e emocional acarretou em um resultado maior de vendas. E não só isso. Na minha opinião é muito difícil se alcançar o sucesso esperado na primeira tentativa. Normalmente isso vem depois do segundo, terceiro, quinto projeto. O jeito é não desistir e sempre acreditar em você e na sua ideia.

AIComEssa crise editorial influenciou o modo de publicação dos seus livros?

Bruna – Eu diria que as novas formas de ter o seu livro publicado têm maior influência. Hoje grande parte das editoras de pequeno e médio porte cobram pela publicação e o retorno financeiro para o escritor é de mínimo a nenhum. Na minha visão as editoras mais prendem os trabalhos dos autores do que fazem com que esses cresçam e se desenvolvam no mercado editorial. Quanto às grandes editoras, essas por sua vez se mostram inacessíveis a novos autores. Essa situação se agrava dentro do mercado editorial brasileiro. Ainda existe a ideia enraizada na cabeça de muita gente de que autores estrangeiros são melhores do que os nacionais. Isso é um grande mito. Há autores nacionais quase tão bons quanto grandes nomes da literatura estrangeira. Muitos livros escondidos nas prateleiras das livrarias que não recebem o prestígio merecido.

AIComVocê acredita que essa crise terá um final feliz?

Bruna – É difícil dizer. Espero que sim, mas para se atingir o resultado esperado é necessário um grande incentivo aos jovens para a leitura. E não falo de um tipo específico de leitura. É importante respeitar que nem todos vão gostar de um determinado livro, que cada um tem uma preferência por gênero e que gostar de livros de terror, ficção científica, ou qual quer que seja o gênero não te torna menor, menos refinado ou inteligente por isso. Nem todos vão curtir clássicos da leitura brasileira, assim como nem todos irão curtir romance de época. Um dos principais fatores que faz você gostar ou não de um determinado livro é o quanto dele te tocou, o quanto você se identificou com a história. As pessoas são diferentes. Não podemos esperar que todos se identifiquem com o mesmo tipo de leitura. Se as escolas vissem dessa maneira talvez mais jovens iriam aderir ao hábito da leitura. Não veriam mais como uma obrigação para ir bem academicamente, mas como um hábito quase tão prazeroso e gratificante do que ir ao cinema ou assistir uma série de tv.

AICom O que você pensa sobre essa crise editorial?

Bruna – Penso que o hábito de leitura tem se tornado muito menos frequente e visto muito mais como uma obrigação do que como entretenimento. As pessoas reclamam do preço de um livro e por vezes deixam de comprá-lo, mas não se negam a ir a um show que custa dez vezes mais, ou a ir ao cinema. E nem vou entrar no quão injusto me soa ouvir alguém reclamando do preço de um livro, quase como se alguém as estivesse roubando… Para mim é como se a leitura estivesse morrendo, e junto com ela, toda a capacidade criativa de imaginação. Não digo que ver um filme seja ruim, mas um livro exige uma capacidade muito maior do leitor em imaginar, enquanto que um filme traz quase que todas as informações prontas. Ver o filme é o caminho mais fácil. Quantas pessoas você vê subindo as escadas ao invés de pegar o elevador? Ler, para mim, é como subir as escadas, mas ao invés de exercitar o corpo, você está exercitando a mente.

“Quantas pessoas você vê subindo as escadas ao invés de pegar o elevador? Ler, para mim, é como subir as escadas, mas ao invés de exercitar o corpo, você está exercitando a mente”.

AICom Qual a importância de novos escritores brasileiros para você?

Bruna – Eles são o futuro. E não falo isso da boca para fora. A arte é o caminho para o desenvolvimento de um país. Isso pode parecer estranho em um primeiro momento, mas em 1995 a UNESCO publicou um relatório chamado Our Creative Diversity: Report of the World Commission on Culture and Development. O que é isso? Resumidamente foi reconhecido pelo comitê que era chefiado pelo ex secretário das Nações Unidas, o general Javier Pérez, a importância da cultura para o desenvolvimento, bem como o papel dos artistas dentro deste contexto. Os novos autores fazem parte deste grupo. Escritores, pensadores, filósofos, artesões, pintores, ou seja, eles são a chave, são essenciais para o desenvolvimento de uma nação.

AIComA literatura brasileira faz parte do seu cotidiano? Tem algum livro para indicar?

Bruna – Infelizmente não tanto quanto os livros internacionais, mas Jadna Alana foi uma das minhas referências quanto estava começando. Ver alguém tão jovem seguir o mesmo caminho que eu queria trilhar era motivador. Era inspirador. Indico A princesa de Ônix.

AIComVocê acha que há um preconceito sobre livros brasileiros, aqui mesmo no Brasil?

Bruna – Sem dúvida, sim. Infelizmente muita gente ainda acredita que o que é de fora é sempre melhor. Isso não apenas acontece na literatura, mas em muitos outros segmentos. Perfumes importados, carros importados, livros estrangeiros, tudo isso sobrepondo os nacionais. Felizmente, não posso generalizar. Já encontrei muita gente que dá preferência para os livros nacionais. São minoria, mas eles existem sim, não é lenda.

AICom– Quais suas expectativas para o mundo editorial daqui para frente?

Bruna – Nossa, pergunta difícil! (risos) Espero que ele cresça, que a leitura passe a ser valorizada. Que autores nacionais recebam o prestígio que merecem e que possam sair das “sombras” projetadas pelos livros “hollywoodianos”. E isso me parece grandemente possível. Sempre me lembro do Paulo Coelho quando a coisa parece feia. Um brasileiro, que alcançou a marca de um dos autores com livros mais vendidos no mundo. Um exemplo pra mim, uma inspiração!

AICom – Já tem em mente mais histórias para serem escritas? Alguma publicação a vista?

Bruna – Ah, eu sempre tenho! Para começar tem a continuação de Inesquecível que é o projeto que mais pede atenção no momento, mas também estou trabalhando em um romance policial, o Hebe Halle. Trata-se de gênero bem novo para mim, mas que vem me conquistando de forma assustadora.

[1] Aluna do sétimo  semestre do curso de Jornalismo e estagiária da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

 

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