Livro-reportagem de Caco Barcellos traz uma rigorosa investigação sobre o trabalho da Polícia Militar de São Paulo

“Rota 66 – A história da polícia que me mata” desmonta as engrenagens da Rota e traça o perfil de seus principais matadores

Texto e Foto: Fernanda Carvalho e Patricia Santos [1]

Carla Tôzo [2]

 

A obra do jornalista Cláudio Barcellos de Barcellos é resultado de uma investigação que durou cinco anos sobre a Ronda Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) que atua na cidade de São Paulo. Caco averigua 22 anos de atuação da Policia Militar (1970-1990), reunindo uma série de informações sobre os extermínios e de como eles aconteciam.

No primeiro capítulo, é relatado a perseguição a um fusca azul, no qual estava três jovens estudantes pertencentes a classe média alta que foram brutalmente assassinados após fugirem da Veraneio número 66 da Rota. Mesmo diante da violação do local do crime, a perícia não teve dificuldade em constatar execução devido à quantidade de buracos de balas no carro, localidade das balas nas vítimas e a ausência de pólvoras nas mãos.

Este caso, Rota 66, como ficou conhecido, estava fora dos padrões da ação da polícia, uma vez que os jovens eram moradores do Jardins e filhos de executivos. No entanto, ao longo da pesquisa foi possível constatar que esse foi o único caso em que jovens da classe alta foram executados. A maioria das vítimas atingidas pela Rota eram rapazes jovens, negros e habitantes de territórios periféricos.

A Rota, que foi criada para combater guerrilhas durante a ditadura militar, continuou a agir no combate da violência urbana. Composta por diversos matadores, executava os suspeitos em supostos tiroteios, sendo que, na maioria das vezes, as vítimas estavam desarmadas. Após as execuções, ao invés de levarem os corpos ao IML (Instituto Médico Legal), os policiais levavam ao hospital, a fim de fingir que estavam prestando socorro aos cadáveres, alterando o local do crime.

A semelhança entre o caso Rota 66 e todos os outros contados no livro se igualam somente em um aspecto: a impunidade. As pesquisas feitas por Caco nos mostram que a maioria das vítimas dos policiais eram inocentes, não apresentando antecedentes criminais. O trabalho de investigação e o corporativismo da polícia militar, além do apoio da mídia, dificultaram a punição dos policiais matadores mesmo quando comprovados os crimes de execução. Na maioria das vezes em que os policiais foram levados a julgamento, quase sempre foram absolvidos de seus crimes.

“O saldo da matança da PM, somente até 1975, já é maior, portanto, que o número de mortos e desaparecidos políticos durante todo o período de 21 anos de ditadura militar.” Esse trecho da página 89 já nos mostra que a obra prende o leitor do início ao fim. Não tem como ler e não ficar indignado com a impunidade no nosso país. Sem dúvidas, a leitura vale a pena.

[1] Alunas do sétimo  semestre do curso de Jornalismo e estagiárias da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s