Mais de 60 mil mortos dentro de um hospital

Daniela Arbex não poderia ter escolhido nome melhor para o seu livro que conta a história de uma das maiores tragédias ocorridas no Brasil

Por Amanda Sprocati [1]

Carla Tôzo [2]

 

No livro Holocausto Brasileiro, a jornalista Daniela Arbex retrata as atrocidades cometidas dentro do Hospital Colônia, através de relatos de sobreviventes e funcionários. Sua escrita é rica em detalhes e faz com que o leitor fique com um nó na garganta logo nas primeiras páginas. Os relatos descritos são chocantes, inacreditáveis e cruéis. E sua comparação com o holocausto em Auschwitz não foi à toa, pois os números impressionam.

O manicômio, inaugurado em 1903, na cidade de Barbacena em Minas Gerais, recebia pacientes da cidade, mas também de fora dela através de um trem, intitulado popularmente como “trem dos doidos”. A cidade, também recebeu seu apelido, “cidade dos loucos”, pois além do hospital Colônia, haviam mais seis instituições psiquiátricas.

O inusitado do hospital, é que 70% dos pacientes não apresentavam nenhuma doença mental, admitidos como tal por interesses alheios. Os alcoólatras, índios, pobres, pessoas sem documentos, mães solteiras, mendigos, militantes políticos, gays e até pessoas com tristeza ou timidez, e mulheres que descobriram traições dos maridos eram jogadas no hospício para evitar escândalo na família. O que era para ser um hospital, na verdade era um depósito de pessoas indesejadas.

Durante seu período de funcionamento, que durou 77 anos, o tratamento oferecido às pessoas internadas na instituição estava longe de ser o adequado. Além do local superlotado, os internos recebiam terapia de choque e jato de água gelada durante as madrugadas. Como não havia espaço suficiente, as camas foram substituídas por leito de chão com feno e as pessoas dormiam umas em cima das outras. Não tinha banheiro, portanto as necessidades eram feitas nos pátios e isso fazia com que higiene fosse algo inexistente dentro do hospital, além de fazer aparecer insetos e animais. A comida era escassa, e muitas vezes, apodrecida e a água disponível para beber era a do esgoto que ficava exposto à céu aberto.

E não parou por aí. O que já começou ruim, terminou pior ainda. O número de mortos começou a aumentar depois de um tempo, fazendo com que o cemitério do hospital também ficasse superlotado. A grande solução foi vender os corpos em massa para as faculdades de medicina das redondezas para que fossem usados nas aulas de anatomia, mas caso as vendas não fossem efetuadas, os corpos eram dissolvidos em ácido, nos pátios do hospital na frente de todos.

Cerca de 60 mil pessoas morreram até o ano de 1980, e entre as pessoas mortas, 1.853 foram vendidas. Menos de 200 pessoas sobreviveram. E até hoje ninguém foi punido pelo genocídio.

[1] Aluna do sétimo semestre do curso de Jornalismo e estagiária da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

 

 

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