Melody Attack: a festa cultural do Talking Heads

Exploramos o leque de influências de uma banda ambiciosa

Por Gabriel Castilho [1]

Edilaine Felix [2]

O Talking Heads foi um quarteto nova-iorquino formado por David Byrne (vocalista e multi-instrumentista), Chris Frantz (baterista), Tina Weymouth (baixista) e Jerry Harrison (tecladista e guitarrista) em 1975. Aparecendo como um dos pioneiros do new wave, o conjunto mostrou promessa ao lançar três álbuns criticamente aclamados em três anos: Talking Heads: 77 (1977), More Songs About Buildings and Food (1978) e Fear of Music (1979).

Após o sucesso de Fear of Music, a banda se dispôs a mudar de direção para gravar seu novo álbum. O grupo expandiu seus horizontes e coletou referências de várias culturas para dar início ao projeto então intitulado Melody Attack.

Foi por meio de uma série de iniciativas individuais que as inspirações surgiram: David Byrne começou a trabalhar como Brian Eno em My Life in the Bush of Ghosts (gravado a partir de 1979, lançado em 1981) – disco que sampleia extensivamente a música regional de países africanos e do Oriente Médio.

Enquanto isso, o casal Tina Weymouth e Chris Frantz passava férias no Caribe e entrou em contato com o reggae da dupla jamaicana Sly & Robbie e a percussão haitiana, que rapidamente ofereceu uma nova visão aos músicos. Byrne, Harrison e Eno (produtor) se reuniram ao casal nas Bahamas para começar a gravar o LP.

Logo de início, a base do álbum era a música I Zimbra, da própria banda, e o disco Afrodisiac (1973) do artista nigeriano pioneiro de afrobeat Fela Kuti, mantendo o foco na complexa polirritmia africana e também trazendo os instrumentos de sopro característicos do gênero. A proposta dos músicos era mesclar rock e gêneros africanos, e não imitar a música africana.

A cantora de soul Nona Hendryx, que já havia trabalhado com Harrison, ofereceu backing vocals ao grupo, frequentemente cantando com Byrne e Eno. O guitarrista americano Adrian Belew, que passava o som de sua guitarra por um sintetizador Roland, também trabalhou no álbum e trouxe um timbre mais eletrônico aos solos de guitarra do disco. Eno, aficionado pela música eletrônica e ambiente, aplica características desses estilos às faixas – algo bastante notável no single Once in a Lifetime.

David Byrne estava tendo dificuldade em compor letras. A princípio, ele se inspirou na improvisação vocal de músicos africanos e do próprio Brian Eno para cantar onomatopeias sobre as faixas instrumentais, que, após serem repetidas várias vezes, foram transformadas em palavras na cabeça do músico. Tanto a escrita quanto as performances de Byrne passaram a ser influenciadas pelo rap (que ainda estava em fase inicial), principalmente pelo rapper nova-iorquino Kurtis Blow e seu imenso single The Breaks (1980). Tina Weymouth revelou que o início do hip-hop influenciou o grupo em várias maneiras e os fez “perceber que as coisas estavam mudando”.

Segundo David Bowman em seu livro This Must Be the Place: The Adventures of Talking Heads in the Twentieth Century (2002, It Books), Byrne nunca tinha ouvido nenhum álbum do Joy Division, mas a faixa final de Melody Attack, The Overload, foi inspirada somente no que ele tinha lido sobre a banda britânica de pós-punk. A similaridade é incontestável.

O produto final evidenciava que a proposta inicial da banda tinha se concretizado – mais do que isso, o Talking Heads tinha conseguido refrescar e redefinir o new wave incorporando os mais diversos gêneros que atravessavam o Caribe, a costa leste dos Estados Unidos, o oeste da África e a região de Grande Manchester (entre outros locais) de forma espontânea e única.

Assim, Melody Attack – título que veio de um game show japonês que os artistas tinham assistido no começo das sessões de gravação – teve o nome mudado para Remain in Light e foi lançado em outubro de 1980, recebendo enorme apreciação dos críticos da época, inclusive sendo considerado o quarto melhor álbum de sua década pela revista Rolling Stone. Para o escritor David Sheppard, o quarto álbum de estúdio da banda foi visto tanto como um “disco vívido de art pop”, quanto como “um grande evento cultural”.

 

[1] Aluno do sexto semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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