Fora da zona de conforto

David Bowie, Talking Heads e Fishmans reuniram diversas partes do mundo em suas discografias

 Por Gabriel Castilho [1]

Edilaine Felix [2]

A música popular é dividida em vários gêneros e subgêneros que, às vezes, parecem ter mais diferenças do que semelhanças. Para alguns, as diferenças espantam. Mas outros se interessam pelas particularidades de cada cena e imaginam formas de juntá-las.

Para encontrar inspiração, os músicos David Bowie, Talking Heads e Fishmans deixaram seus nichos e buscaram referências das mais diversas culturas, conectando gêneros e criando novos estilos.

David Bowie

David Bowie estreou com um disco homônimo ainda em 1967 e acompanhou o desenvolvimento do mundo da música de perto, constantemente readaptando suas inspirações. Em 1976, o inglês se mudou para Berlim e se encantou pela cena musical alemã, especialmente pelo krautrock do Neu! e a música eletrônica do Kraftwerk e Tangerine Dream.

Para aplicar essas influências à sua própria música, Bowie se aliou a um dos pioneiros do ambiente e da eletrônica: Brian Eno. Dessa parceria nasceu a Trilogia Berlim, que consiste de Low, Heroes (1977) e Lodger (1979) – álbuns de art rock e art pop fortemente marcados pelo uso de sintetizadores e faixas ambiente.

Quatro décadas depois, Bowie continuava em atividade e lançou seu último disco, ★ (Blackstar), em 8 de janeiro de 2016, dois dias antes de sua morte. Os colaboradores Donny McCaslin (saxofonista) e Tony Visconti (produtor) disseram que eles ouviam o trio de hip-hop industrial californiano Death Grips e o álbum To Pimp a Butterfly (2015), do rapper vencedor de prêmio Pulitzer Kendrick Lamar, junto de Bowie constantemente. Ambos viraram influências durante o processo criativo.

E uma carreira tão fenomenal só poderia se encerrar com um álbum tão grandioso quanto Blackstar: disco de art rock e jazz-rock que incorporou tanto as velhas influências do artista como também trouxe novas, dessa vez de músicos contemporâneos do hip-hop norte-americano. Que o homem de muitas faces descanse em paz.

Talking Heads

Após cinco anos na estrada, os integrantes do Talking Heads viram que era importante seguir um novo caminho para fazer um disco mais colaborativo, que envolvesse o esforço de toda a banda e ser mais do que música de fundo para as letras de David Byrne. Ao lado de Brian Eno, o quarteto saiu de Nova Iorque rumo às Bahamas, absorvendo múltiplas influências.

Se na década de 70 o new wave do conjunto era acompanhando do punk e do funk, em Remain in Light (1980) o grupo se abriu a novos universos. O reggae de Sly & Robbie; estilos tradicionais do Haiti; um hit de Kurtis Blow na fase inicial do hip-hop; o afrobeat de Fela Kuti; a inovação de Adrian Belew; a voz de Nona Hendryx e a visão de Brian Eno foram alguns dos principais fatores que resultaram em um disco caótico e eclético.

O primeiro LP da banda em uma nova década representa um encontro de várias ideias e culturas que acontece em quarenta minutos. Os grooves desconcertantes trazidos da música africana, tocados de forma intencionalmente repetitiva, dividem espaço com solos de guitarra processados por um sintetizador e performances vocais enérgicas de Byrne.

Saiba mais sobre as inspirações do Talking Heads e como elas foram utilizadas em Remain in Light [aqui].

Fishmans

fishmans
O Fishmans uniu reggae, rock e hip-hop para criar uma trilogia incrível. Foto: Divulgação

Nos anos 90, o Fishmans movimentou a cena underground japonesa. Três jovens trouxeram o dub, subgênero do reggae, da Jamaica à Tóquio e combinaram o estilo com a onda de neo-psicodelia que despertava interesse na década.

A banda trabalhou o ritmo caribenho com os mais variados gêneros até conquistar a identidade sonora pela qual ficou conhecida no disco Kūchū Camp (1996) – um dream poprítmico, acentuado pelo baixo de Yuzuru Kashiwabara. O som é caracterizado pelo uso de loops de bateria e samples (cortesia de Kin-ichi Motegi), algo tradicional do hip-hop dos Estados Unidos, gênero que interessava os integrantes do grupo.

Grupos de rap como Arrested Development, The Pharcyde e Digable Planets serviram de inspiração. As influências do reggae vieram de vários músicos jamaicanos, entre eles Bob Marley, Boris Gardiner e Linton Kwesi Johnson.

No mesmo ano, o Fishmans lançou LONG SEASON, um álbum majestoso de pop progressivo, dream pop e dub que tem somente uma música de 35 minutos dividida em cinco seções. O disco foi sucedido por Uchū Nippon Setagaya (1997), no qual o trio se aproximou do trip hop com influências do Massive Attack e Portishead, pioneiros da cena de Bristol, Inglaterra.

Infelizmente, a banda se deparou com seu fim prematuro devido a morte do vocalista e guitarrista Shinji Sato em 15 de março de 1999 por conta de um problema crônico de coração. Com o advento da internet, nos últimos anos o trabalho do Fishmans se tornou uma espécie de clássico cult e o legado de Sato pôde ir muito além do Japão.

 

[1] Aluno do sexto semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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