A Cidade e seus Seres Invisíveis

Resenha: O Mistério das Bolas de Gude de Gilberto Dimenstein

Por Tarcísio Alves  [1]

Carla Tôzo [2]

 

Uma realidade que muitos preferem ignorar a existência: policiais e crianças órfãs consumindo crack, garotas na flor da idade se prostituindo, tráfico de pessoas, pacientes infectados pela Aids completamente abandonados pela família; violência, violência, violência…

Em um livro com pouco menos de 200 páginas, escrito com uma linguagem acadêmica tão clara e objetiva que te faz querer lê-lo até o final, ainda desejando que tivesse mais páginas, o premiado jornalista Gilberto Dimenstein, criador do portal Catraca Livre, ex-colunista da Folha de São Paulo, narra estas histórias de pessoas quase invisíveis; pessoas abandonadas e desprezadas por toda a sociedade, a mídia e o governo.

São pessoas buscando uma segunda chance na vida, e que por conta desta invisibilidade que os acompanha desde sempre, tiveram de se refugiar nas drogas e na violência.

Pessoas gritando socorro, e que igual a todos nós – como é mostrado pelo autor – tentam ao menos desenvolver e apresentar seus talentos, na arte, na literatura ou na música como saída daquele mundo odioso.

No livro, lançado em 2006 pela Editora Papirus, Dimenstein viaja por diversas partes do país – e algumas do exterior, como Estados Unidos e Colômbia – coletando estas histórias. Ele apresenta estatísticas, dados e pesquisas, além entrevistar especialistas; professores universitários, psicólogos, dentre outros.

Na obra o autor ainda constrói todo um resumo da história da cidade de São Paulo; desde a época da República Velha, quando muitos imigrantes chegaram para trabalhar nas plantações de café, aos dias de hoje, com a cidade industrializada, sendo a sétima maior do mundo e alarmada com os altos índices de criminalidade. De Nova York, outra cidade de onde o autor traz histórias, Dimenstein mostra a parte mais obscura: aquela dominada pelo tráfico e consumo desenfreado de heroína, prostituição, e confrontos entre gangues de imigrantes latinos, como mexicanos, cubanos e porto-riquenhos.

Dimenstein e sua obra são exemplos de um bom jornalismo investigativo. O “Mistério das Bolas de Gude” é uma amostra do que é encontrar boas histórias onde ninguém mais encontra, e ainda entrevistar especialistas, apresentando dados, dando ao livro mais informação e credibilidade. E a despeito de ser um livro fácil de ler, por conta de sua linguagem objetiva, foi escrito para poucos; por conta de suas histórias trágicas, de pessoas acostumadas a conviver com a violência, o abandono e a degradação todo santo dia.

[1] Aluno do sétimo semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

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