Cineastas discutem produção cinematográfica das periferias

Além da forma como a periferia é retratada no cinema brasileiro, a conversa também explorou como é ser um cineasta de periferia

Texto: Felipe Aranda [1]

Vídeo: Ana Luiza Antunes [2]

Edilaine Felix [3]

 

A produção cinematográfica brasileira ainda é pequena. Em 2017, o Brasil lançou 160 títulos nacionais de acordo com o Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro da Agência Nacional do Cinema (Ancine). No mesmo período, a América do Norte, por exemplo, lançou 740 títulos de acordo com o Statista, portal alemão especializado em estudos e estatísticas.

Ainda de acordo com a Ancine, o gênero comédia é o que acumula a maioria dos títulos lançados, com 57,11% do total. Nesse cenário, dificilmente se consegue encontrar o tema periferia, pois, é pouco representado nos títulos produzidos e ainda menos relacionado ao gênero comédia quando é retratado.

Essa foi uma das pautas da mesa “Como ser um cineasta nas periferias?” da III Semana de Rádio e TV, Audiovisual e Multimídia na noite de terça-feira, 23/04. O cineasta e realizador Cristiano Burlan e o também cineasta e montador Valter Rege, completaram a mesa do mediador e professor Piero Sbragia no Auditório Nelson Carneiro do campus Liberdade do Centro Universitário – FIAMFAAM.

Imagem nas grandes telas

Retratar a periferia no cinema é, muitas vezes, contar episódios das vidas das pessoas da comunidade. A ficção fica um pouco distante, pois a dificuldade diária se torna urgente. Nascido em Porto Alegre, RS, Cristiano Burlan mudou-se para São Paulo aos 9 anos. Morando na periferia, no Capão Redondo, zona sul da capital, vivenciou momentos de profunda dor e acredita que esses acontecimentos despertou o seu interesse, posteriormente, em retratá-los quando passou a exercer a função de cineasta.

“Muitos amigos foram mortos, meu irmão foi assassinado lá e, assim que eu comecei a fazer filmes, eu sempre pensei em voltar nessas questões que, de uma certa maneira, nos formam, nos moldam. Acho que é impossível seguir adiante sem pensar no que foi nosso passado, nossa história”, argumenta Burlan.

Valter Rege também retrata o cotidiano da periferia em que vive na Vila Clara, zona sul da capital, mas busca protagonizar a positividade em suas produções. Para ele, a periferia sempre foi e ainda é utilizada pelas produtoras elites como cenário único de violência, e a sociedade acabou assimilando essa ideia. “A gente só absorve violência. Até quem mora na periferia, acaba achando que só existe aquilo e eu comecei a fazer esses vídeos na minha laje para ressignificar aquele lugar. A gente tem que parar, ou pelo menos começar, a produzir sobre óticas mais positivas e principalmente sobre a nossa ótima, o negro e o periférico.”

A discriminação e a disseminação

No início de sua carreira, Valter Rege enfrentou muitas barreiras. Além da dificuldade em ingressar no ensino superior nos anos 2000, sentiu, posteriormente, resistência por parte do mercado na oferta de oportunidades no meio audiovisual, tanto em direção , como em roteirização. Negro, o cineasta começou a entender que o preconceito também estava na raça quando sofreu racismo dentro de uma das produtoras em que trabalhou.

Foi assim que Valter encontrou a saída nos mecanismos independentes, nas plataformas digitais. “Eu costumo dizer que se não fosse o digital, eu jamais seria um produtor de cinema, porque o mercado do cinema não me deu esse aval. Eu falei, se eu produzo filme desde os 13, se eu monto vídeos e filmes desde os 13, eu sou diretor.”

Sua experiência de vida resultou também em palestras com o intuito de fortalecer a produção audiovisual da periferia. “É isso que eu pretendo levar para a periferia, porque a gente é muito subestimado”, complementa.

Tradicionalmente, filmes dependem de distribuidoras para levarem os conteúdos para as telas das conhecidas salas de cinema, mas esse trajeto não está evoluindo com o tempo. Os longas são produzidos, gravados e editados, mas as distribuidoras não enxergam o valor desses materiais da mesma forma que enxergam outras produções nacionais. Cristiano Burlan comenta que, ao viajar pelo Brasil, entendeu que muito é feito, mas pouco é difundido e que “há um vazio muito grande entre a produção que cresceu exponencialmente e a divulgação desse material”.

Confira o vídeo do segundo dia da Semana de Rádio e TV, Audiovisual e Multimídia

 

[1] Aluno do quinto semestre do curso de Jornalismo e monitor da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[1] Aluna do quinto semestre do curso de Jornalismo e monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s