The Money Store revela novo estilo de Sacramento Death Grips

Samples são um dos elementos mais criativos e interessantes do álbum  

Por Gabriel Castilho [1]

Edilaine Felix [2]

 

The Money Store é o primeiro álbum de estúdio do trio de hip-hop de Sacramento Death Grips, lançado em abril de 2012. O trio é composto por Zach Hill, baterista e produtor; MC Ride (Stefan Burnett), vocalista, rapper; e Andy Morin, engenheiro de áudio.

Antes desse álbum, o conjunto já havia lançado um EP homônimo e a mixtape Exmilitary, ambos no ano de 2011. Como toda boa mixtape deve fazer, Exmilitary jorrava potencial e, principalmente, excentricidade.

Os vocais de MC Ride são abrasivos e selvagens e preenchiam as batidas agressivas, recheadas de samples de outros artistas (de Pet Shop Boys à Pink Floyd), mas que ainda tinham um certo caráter simples e bruto.

Temas de violência, satanismo, misantropia, entre outros, eram embalados em letras crípticas e poéticas, que se diferenciavam do padrão do hip-hop. As estruturas não eram convencionais para o hip-hop: Spread Eagle Cross The Block parece ser uma bagunça total, mas funciona… e é ótima.

Com essa mixtape, o grupo elevou o nível de qualidade que qualquer fã exigiria. The Money Store poderia ser um total fiasco, afinal, como superar algo que já era tão único como Exmilitary? A resposta foi abandonar parte das características que tornaram a mixtape incrível e mergulhar de cabeça num novo estilo.

Aos 10 segundos da primeira faixa do disco, Get Got, a batida parece explodir, com todos os sons dela se colidindo caoticamente, criando uma atmosfera de adrenalina – uma sensação que se estende por todos os 41 minutos do álbum.

A instrumentação nesse álbum é a mais densa, complexa e intrigante que o grupo já apresentou. As baterias chamam atenção pelo som metálico, barulhento e, às vezes, tribais. Os graves são extremamente potentes e as melodias contagiantes.

Em Fuck That, a densidade da batida resulta em um certo desdém pela teoria musical. A faixa conta com vários instrumentos de percussão e cada um parece ser tocado com uma intenção diferente. Fazer com que todos os sons se encaixem e fiquem no mesmo ritmo não é prioridade.

Entretanto, isso não prejudica a música, pelo contrário, se torna o diferencial dela. Esse “descaso” também é algo recorrente na música experimental de artistas como Captain Beefheart & His Magic Band e This Heat.

Apesar de as estruturas das músicas de The Money Store serem levemente incomuns para o hip-hop (menos em Exmilitary), o disco possui um certo apelo pop, devido a seus ritmos e melodias cativantes e, principalmente, seus ganchos memoráveis.

Ganchos

As melodias oscilantes de The Fever (Aye Aye) e The Cage, combinadas com os flows marcantes de MC Ride são verdadeiras referências de ganchos. Em System Blower, Burnett aparece extremamente abrasivo, acompanhado de um instrumental tão hostil quanto seus vocais. Esse gancho tem um sample inusitado: um jogo de tênis entre as irmãs Williams.

Um dos elementos mais criativos e interessantes do álbum são os samples. Se em Exmilitary tivemos samples de David Bowie e Black Flag quase inalterados, em The Money Store a engenhosidade é maior.

Temos faixas de uma compilação de músicas que estavam em celulares encontrados no deserto do Saara: uma delas se torna a principal melodia de Get Got e outra se transforma em baterias de Fuck That. Já uma guitarra presente em Manic Depression de Jimi Hendrix vira um grave brutal em Punk Weight… E em System Blower, gravações da partida de um trem são incorporadas na música.

Apesar das batidas tirarem o fôlego do ouvinte, as performances de MC Ride não ficam atrás. Os raps rápidos, porém, calmos em Get Got e Double Helix ainda não tinham sido usados em projetos anteriores da banda e mostram o lado mais técnico e tradicional de Burnett.

Já os vocais enérgicos e furiosos (que remetem ao hardcore punk) nas demais faixas são essenciais e acrescentam ao caos do álbum e aos temas das letras. Ride fala sobre as camadas mais fundas e obscuras da sociedade, e de conflitos internos e mentais que ele (ou, talvez, sua persona) deve enfrentar.

Get Got possui diversas referências à paranoia e uma possível lobotomia. Grande parte das faixas falam sobre a marginalidade e o submundo do crime, pela perspectiva do infrator. Entretanto, The Fever oferece um contraste: há uma reflexão sobre o vício em drogas e a degradação humana pela visão do usuário.

Um dos pontos altos do álbum, liricamente, é I’ve Seen Footage, que trata da dessensibilização causada pela internet, onde alguns usuários assistem, compulsivamente, vídeos de mortes reais por puro entretenimento e sadismo. Ride também fala sobre a sensação de sempre estar sendo vigiado e compara a violência eternizada na Internet àquela dos guetos americanos.

As letras aqui são mais diretas, menos crípticas, mas ainda com uma alta demonstração de capacidade técnica: vocabulário impressionante, abundante uso de metáforas e referências, e uma abordagem poética para temas sinistros.

Em menos de uma hora, The Money Store apresenta uma nova maneira de se fazer hip-hop que impacta o ouvinte com todos os recursos possíveis, e o Death Grips cria arte da forma mais bruta imaginável.

 

[1] Aluno do sexto semestre do curso de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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