242 vidas interrompidas de uma só vez

A tragédia da cidade de Santa Maria, município do Rio Grande do Sul, é o tema do livro Todo Dia a Mesma Noite – a história não contada da boate Kiss, sensível obra da jornalista Daniela Arbex

Fernanda Carvalho e Patrícia Santos [1]

Carla Tôzo [2]

 

 

Com escrita fluída e uma riqueza de tristes e chocantes detalhes, a autora retrata todo o ocorrido com os jovens que estavam na boate Kiss naquela quinta-feira do dia 27 de janeiro de 2011.

O incêndio na boate foi exaustivamente explorado na mídia, ainda assim, por meio deste livro-reportagem, Daniela conseguiu narrar uma extensa reportagem que não seria suportada pelas mídias convencionais do jornalismo. O gênero, literário, envolve e emociona o leitor do início ao fim.

Narrado em terceira pessoa, em um formato flashback, a obra traz histórias e depoimentos de familiares e testemunhas a respeito da noite que marcou a cidade. A narrativa aborda a negligência das autoridades responsáveis pela boate, relatos de pessoas que auxiliaram no resgate dos corpos que foram colocados no chão de um ginásio para reconhecimento, além de depoimentos de profissionais da saúde, bombeiros, sobreviventes e outras inúmeras figuras importantes da narrativa.

Tudo aconteceu durante o show da banda Gurizada Fandangueira, atração da noite, quando o vocalista acendeu um sinalizador e as faíscas do artefato incendiaram o material que revestia as paredes e o teto da boate. O fogo tomou conta rapidamente do local e a queima do material liberou uma fumaça tóxica que asfixiou os frequentadores, assim como nas câmaras de gás utilizadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Diante dessas e tantas outras informações, é preciso ter fôlego e um lenço de papel para ler as seguintes 236 páginas da obra.

Alguns dos momentos mais impactantes do livro são narrados por Liliane Duarte, capitã no Hospital da Brigada Militar da cidade, que conta que ao entrar no ginásio do Farrezão, como era conhecido o lugar onde os corpos ficaram para a identificação, se deparou com uma “sinfonia” de celulares tocando. No visor, ela via ligações perdidas de contatos salvos como “mãe”, “mamãe”, “vó”, ”casa”, “mana”. Outro forte momento relembrado por ela foi de quando uma mãe custava a acreditar que o corpo que estava no chão era o da sua filha. A ficha só caiu quando uma tatuagem foi identificada.

Por mais que tenhamos acesso às reportagens sobre o incêndio, o livro conseguiu ir a fundo e traçar todo um panorama da tragédia. Quando analisamos os depoimentos dos profissionais da saúde, por exemplo, vemos que nem toda experiência profissional é suficiente diante de tanta dor.

Com o aval das famílias, Daniela acompanhou a triste busca por filhos, netos, sobrinhos e a luta pelo direito de velá-los diante da falta de caixão, flores e até covas. A cidade, que atualmente abriga 278.445 pessoas, não tinha estrutura nenhuma para suportar um episódio como esse.

Em meio a todo o caos, a obra conseguiu direcionar o olhar do leitor para a solidariedade prestada por diversas pessoas que se comoveram com o acontecimento, como por exemplo, taxistas que fizeram corridas de graça prestando socorro às vítimas e transportando familiares, profissionais das Forças Armadas prestando total apoio aos médicos e inúmeras outras cenas de compaixão.

Por outro lado, também nos mostrou o desrespeito com o qual alguns políticos e agentes públicos entraram no ginásio onde os corpos estavam, além da exploração da tragédia com pacotes funerários inflacionados e famílias processadas pelo Ministério Público.

O livro de fato faz um looping de 360° em tudo que aconteceu não só naquela noite, mas também nos dias que se sucederam. As 242 vidas interrompidas no incêndio não foram tratadas apenas como estatística; cada história citada marca o leitor de alguma forma. Por meio da obra, a autora consegue construir um memorial contra o esquecimento da noite que marcou a cidade.

Formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente repórter especial do Tribuna Minas Gerais, Daniela Arbex é uma renomada e premiada jornalista. Premiada por duas vezes com o prêmio Jabuti, ao reconstituir de maneira sensível os eventos da madrugada de 27 de janeiro de 2013, ela reafirma seu lugar como uma das jornalistas mais relevantes do país.

[1] Alunas do sétimo semestre do curso de Jornalismo e estagiária da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

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