Mulheres no esporte é tema de encerramento da III Semana de Jornalismo

A mesa debateu o dia a dia de ser mulher no jornalismo esportivo e trabalhar em um ambiente majoritariamente masculino

Por Gabriela Sacche, Gisele Sousa, Luana Losimfeldt e Patrícia Santos [1]

Vídeo: Aline Costa. Produção: Karina Souza [2]

Edilaine Felix [3]

Com a mediação da professora Alciane Baccin, o Centro Universitário FIAMFAAM encerra a III Semana do Jornalismo com o tema Jornalistas Mulheres na Cobertura Esportiva. As convidadas foram Laura Fonseca, TV Globo e do SporTV; Juliana Veiga, da ESPN; Mariana Pereira, do Esportudo;  Jade Gimenez, da Rádio Itaquera e Coringão, e Roberta Nina Cardoso e Renata Mendonça, do Dibradoras.  A mesa também teve duas participações especiais via vídeo das jornalistas Karine Nascimento (Ceará) e Alessandra Formagine (Rio Grande do Sul).

As falas foram permeadas das experiências e dificuldades de atuar em um ambiente machista, como, infelizmente ainda é o esportivo. Laura Fonseca, que é produtora do Globo Esporte, pensou em cursar Oceanografia antes do jornalismo, e já fez coberturas em campo e de copas do mundo (Brasil e Rússia) conta que embora seja difícil ser mulher nas coberturas esportivas, lidar com o preconceito e olhares desrespeitosos, nem todas as notícias são ruins.

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Laura Fonseca, Globo Esporte (crédito: Patricia Santos)

A jornalista que pede “respeito em seu espaço para trabalhar” teve uma surpresa agradável ao cobrir a Copa do Mundo de Futebol Feminino na Alemanha em 2011. “A Alemanha tem uma cultura muito forte de futebol feminino, lotava os estádios”, revela.

Atleta de snowboard, Juliana Veiga, buscou o jornalismo depois de perceber a falta de mulheres nas coberturas esportivas. Ela que apresentou o SportsCenter na ESPN, sabe da importância de ter mais mulheres na reportagem. “E está aumentando cada vez mais, é só olhar para as emissoras de TV, todas elas têm mulher falando sobre esporte.”

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Juliana Veiga, ESPN (crédito: Patrícia Santos)

Durante sua fala, ela frisou a importância das mulheres se especializarem para não serem criticadas. “Saibam o que vocês estão falando, estudem, se especializem. Principalmente para mulher, se ela não entender do assunto, vai ser massacrada.”

#DeixaElaTrabalhar

Infelizmente os casos de assédio pessoais e virtuais ainda são frequentes no ambiente esportivo. Juliana já foi atacada virtualmente. “A primeira vez que eu sofri um ataque desses foi na ESPN, eu recebi um vídeo bastante pornográfico com uma foto minha e um texto agressivo. Eu tirei um print e mandei para o meu advogado, que em cinco minutos descobriu quem era o agressor.”

A repórter da Rádio Itaquera, da Rádio Coringão e colunista no blog Futebol Por Elas, Jade Gimenez, e a repórter e editora do site Esportudo, Mariana Pereira, sentiram na pele o machismo disfarçado de clubismo por parte de torcedores do Palmeiras, no Allianz Parque, durante a partida que definiria o campeão paulista de 2018. “A minha atitude foi de filmar o que estava acontecendo. Quando a poeira baixou, eu postei o vídeo. Não achei que ia repercutir tanto, mas bombou. Sempre me preparei para isso e sabia que diariamente as mulheres que eu acompanhava e tinha como exemplo passam por isso”, comenta Jade.

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Jade Gimenez, Rádio Itaquera e Rádio Coringão (crédito: Patrícia Santos)

Jade estava atrás do gol das cobranças de pênaltis quando uns cinco torcedores alviverdes começaram a hostiliza-la e jogar objetos nela e em outras duas jornalistas. “Eu fiquei com muito medo, depois entraram nas minhas redes sociais. Foge totalmente do âmbito esportivo, você ter que ir para a delegacia fazer boletim de ocorrência contra meia dúzia de caras que te xingaram”, desabafa.

Quando questionada sobre o que mudou em sua vida depois desse triste episódio, a jornalista é bastante firme. “Eu amadureci. Para ser repórter, sou muito mais madura em campo. O final do campeonato paulista é como um divisor de águas na minha vida: a Jade antes do ‘Paulistinha’ sentia muito a emoção do torcedor em campo, a Jade hoje é mais profissional e ponderada.”

Além do campo

Para editora e repórter do Esportudo, Mariana Pereira, a atleta feminina consegue ter um pouco mais de liberdade, se sentir um pouco melhor com uma repórter mulher. “Mas espero que isso mude, quando o homem mudar o olhar, a recepção já será diferente, então acho a gente vai começar a caminhar pra conseguir equalizar essa diferença.”

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Mariana Pereira, Esportudo (crédito: Patrícia Santos)

Segundo ela, a mulher atleta consegue perceber o olhar, ou do preconceito, ou da diferenciação, porque ela está ali no dia a dia e sabe o esforço que tem que fazer para chegar em 1% do atleta masculino.

Trabalhar num veículo que trata de esportes é o sonho de muitos estudantes de jornalismo, mas ter espaço nesse meio, nem sempre é fácil. Uma opção viável é criar o próprio veículo em parceria com outras pessoas que compartilham da mesma vontade. Assim como do blog Dibradoras, composto atualmente apenas por mulheres apaixonadas por futebol, como Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso, a Nina.

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Roberta Nina Cardoso, a Nina das Dibradoras (crédito: Patricia Santos)

“O Dibradoras surge num ano de Copa do Mundo [de futebol feminino], em 2015 e descobrimos que uma rádio estava procurando mulheres para falar da Copa e fomos”, explica Roberta Cardoso, a Nina, e Renata Mendonça, do blog Dibradoras, feito apenas por mulheres. “Éramos cinco amigas que queriam falar de futebol, mas também ir além do futebol que a gente acompanha, sentíamos falta de veículos que falassem da presença de mulheres no esporte”, explica Roberta.

Oportunidade e respeito

O nome do blog também é uma alusão para combater o machismo no esporte. “A gente queria um nome diretamente relacionado com o que a gente gosta, que é o futebol. Quando a gente fala ‘dibre’, as pessoas que acompanham futebol já se identificam, apesar de todos saberem que ‘drible’ é a palavra correta. Se estamos no esporte é porque já ‘dibramos’ muito machismo por ai”, conta Renata.

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Ao microfone, Renata Mendonça, Dibradoras (crédito: Patrícia Santos)

Diferentemente das outras jornalistas, Nina iniciou sua carreira com gastronomia, e sua chegada ao esporte começou com blogs de torcedores. “A gente se reuniu justamente para ser a voz de mulheres falando sobre futebol que era nossa primeira paixão e, também porque era ano de Copa do Mundo Feminina.”

Inicialmente elas contavam apenas o podcast, e ao ir chamando as atletas viram que as mulheres dos mais variados esportes passavam pelo mesmo problema com relação à visibilidade. “Então o Dibradoras amplia o seu leque para falar das mulheres no esporte, não tinha como a gente ficar restrita as atletas, esse é um problema que passa pela árbitra, pela treinadora, por quem quer ser dirigente, pelas jornalistas, pelas torcedoras”, diz Nina.

Saldo

O jornalista Murilo Campos, que veio participar do evento, destaca que as palestras são fundamentais para o processo de aprendizagem e para saber o que esperar do mercado. “Os palestrantes trazem suas rotinas e este contato é bom, porque vem de quem está na área trazendo a experiência do mercado.”

Para a coordenadora adjunta do curso de Jornalismo, Mayara Lobato, a Semana teve um saldo positivo. Foram 10 mesas, discutindo os mais atuais e importantes temas do jornalismo, “o auditório esteve lotado em todas as mesas e tivemos umaa troca muito boa de experiências”.

Confira o vídeo do evento:

[1] Luana é aluna do sexto semestre do curso de Jornalismo e estagiária da Agência Integrada de Comunicação (AICom), Gisele Sousa e Gabriela Sacche são alunas dos cursos sexto semestre de Rádio e TV e do quarto semestre de Jornalismo e monitoras da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2]  Aline Costa e Karina Quenis são alunas do quinto semestre do curso de Jornalismo e estagiárias da Agência Integrada de Comunicação (AICom),

[3] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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