Direito ao corpo foi debatido em evento sobre o Dia Internacional de Luta das Mulheres

Evento foi marcado por diálogos sobre a autonomia da mulher, seus direitos e liberdades

Por Ana Luiza Antunes [1]

Edilaine Felix [2]

No dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o campus Liberdade realizou na sexta-feira, 8 de março, um debate com enfoque na Luta das Mulheres . O evento, realizado pelo Núcleo de Estudos Étnicos-Raciais (NERA) e o Núcleo de Estudos de Gênero e Sexualidade (NUGE), recebeu a obstetra Ana Thais Vargas, a doula Janie Paula e gerente americana da empresa Pantys, Emily Ewell, mediado pela professora Nadini Lopes,  para falar sobre “Direito ao Corpo: novas formas de nascer”.

Para as convidadas, a inciativa da Instituição foi de extrema importância para formação dos alunos. “As instituições estão treinando o futuro do país, o futuro do mundo. Então vocês são o futuro. Para fazer do mundo um lugar diferente temos que treinar pessoas a pensar diferente. Esse é o objetivo da educação”, destaca Emily. “Nesse momento que tanta coisa da gente está sendo tirada imperceptivelmente, ter núcleos em uma instituição desse porte, desse tamanho, falando para pessoas que estão sendo formadas para integrarem o mercado de trabalho, é fundamental”, ressalta Ana.

Sem vergonha

Feminismo, sexualidade, menstruação e masturbação foram alguns dos vários temas dialogados durante o debate, muitas vezes considerados tabus, mas que para as convidadas, precisam ser dialogados abertamente, sem nenhum tipo de constrangimento. Para Ana Thais, a mulher é negada em vários níveis. “Começa na infância a relação de acesso ao próprio corpo, no qual as meninas que não podem colocar a mão na genitália, tem que fechar as pernas, tem que se comportar”, afirma. “Ela não pode nem se tocar, nem se conhecer porque não é permitido. Não é permitido que a adolescente use os hormônios como o corpo está querendo que ela faça”, destaca.

PHOTO-2019-03-08-10-20-36

“Acho que a gente tem em uma bolha muito pequena uma informação rolando e alguma possibilidade de algumas mulheres existirem em relação aos seus próprios corpos. Mas pensando em sociedade, no tamanho do Brasil e no tamanho da diversidade que a gente tem na nossa cultura, que é basicamente patriarcal, machista e capitalista, esse sistema só faz que a mulher seja cada vez mais silenciada, violentada, oprimida e objetificada”, pontua Janie.

A obstetra ainda complementa o fato do limite em que a mulher é permitida a realizar determinadas ações sem que seja julgada. “Esse limite não é claro e não tem nenhum acesso a conversa com ninguém. E quando adulta, não tem direito a saúde do próprio corpo e decisão em cima dele. A mulher é julgada, reprimida e negado o acesso livre.”  “Não existe relação com um corpo que não pode existir. Se o corpo não existe, se a mulher não existe como ela pode existir na sociedade, não tem como ela se relacionar com algo que não existe. A relação dela é completamente cheia de intervenções entre ela e o próprio uso do corpo dela. Isso tira a liberdade”, complementa Janie.

Já para Emily, é necessário que a mulher se conheça cada vez mais para impor respeito e igualdade. “As pessoas ainda vêm a mulher como um objeto de beleza. Isso vem muito da cultura machista. A partir do momento em que a mulher se conhece, se respeita e se ama, isso muda bastante. Porque se ela se respeita, ela não vai aceitar que outra pessoa a desrespeite. Então se você coloca essas regras, você se protege também”.

Moeda de troca

Ao longo do debate, as palestrantes destacaram bastante a ideia de permitir deixar ser quem a mulher é, tendo a cultura machista da sociedade brasileira como um grande empecilho para essa concepção, já que detém de regras e normas de conduta ao sexo feminino. Para elas, a sociedade agride e diminui a mulher todos os dias. De acordo com a obstetra Ana Thais, o conceito de feminismo está pasteurizado para que possibilite a mulher exercer sua autonomia.

Para ela, a mulher é usada como moeda de troca. “Existe o uso da mulher para um falso empoderamento. Existe todo um sistema capitalista que é voltado para um determinado grupo, mas que tem um valor maior daquilo que se compra”, afirma. “A gente consome muito, a gente é incitada a consumir”, complementa Janie. “Nós somos aproveitadas dessa forma, mas o real direito de ter liberdade em cima do que você gostaria de fazer com você mesma, isso não existe”, conclui Ana.

Violência estrutural

Outro tema abordado durante o evento foi a questão da empatia com o outro. Principalmente com a mulher. Para as palestrantes, todo mundo tem que cuidar da existência do outro e ter noção do que se passa para a sua existência. Isso inclui o modo como se trata a questão do parto e também do aborto. De acordo com elas, existe uma violência estrutural nos degraus de avanço da mulher, que impede sua livre escolha. “É difícil ter acesso e pleno direito ao próprio corpo e as pessoas não conseguem entender a ligação entre liberdade sexual, reprodutiva e parto. A incapacidade das pessoas entenderem essa ligação já mostra o quão bloqueado é esse mundo”, afirma Ana.

“E mais uma vez a gente tem a religião que vem influenciar na valorização muito maior desse bebê do que da mulher que está carregando-o, e das vontades dela, dos direitos e das decisões que ela vai tomar. E daí você tem todo um establashiment da medicina que é machista, que é capitalista, que é ideologicamente influenciado pela religião católica”, destaca. Para Janie, essa violência faz com que o corpo da mulher seja desconsiderado. “A forma como o aborto é visto no Brasil, através de uma viés religioso e machista, é de uma violência sem tamanho contra o corpo da mulher. O corpo não existe, só existe essa vida que está lá dentro. Uma vida está sendo desconsiderada e isso é completamente desumano”.

PHOTO-2019-03-08-10-22-57

“Tudo isso é uma trama muito fina e muito arraigada. Então quando você vai falar de parto tem tudo isso que pesa nesse ser que não tem direitos, que é usado como moeda, que é considerado simplesmente um invólucro portador de algo que é muito mais importante do que ela. Além de não ter direito, ela é portadora de um corpo defeituoso que é perigoso para esse bebê”, complementa Ana.

Sistema contraditório

Para a obstetra e para a doula existem diferentes condições na violência estabelecida pelo Estado em relação ao aborto, que ao mesmo tempo que visa auxiliar e dar suporte à mulher, segrega as condições femininas dentro desse amparo.  “Com relação ao estupro, a mulher pode querer viver o processo de gestação, ter esse bebê, e dá-lo para a adoção. Então nesse tipo de violência a gente permite que não se tenha o bebê, mas a mulher que é estuprada dentro do próprio casamento, essa essa violência não existe, então ela não pode abortar.

Esse mesmo viés se enquadra em relação à prostituição, no qual a mulher é julgada por sua escolha e profissão. “Quando a gente fala de violência, a gente fala de consentimento. Se ela não consentiu mesmo que seja o emprego dela, é violência”, afirma Ana Thais. E fala sobre esse grupo de mulher ser estigmatizada simplesmente por sua escolha. “A mulher está sendo castigada por ter escolhido essa vida mundana. Sendo que não é escolha. As mulheres vão para a prostituição porque são oprimidas. É tudo objetificação e submissão”, conclui.

Universo deturpado

Dentro do próprio grupo das mulheres, o machismo ainda consegue separar a condição que cada mulher deve ser submetida. Um exemplo disso é a categorização de violência entre a mulher negra e a mulher branca. Para a obstetra, a mulher negra sofre ainda mais violência. “Tem em cima da mulher negra o estigma de que ela aguenta mais, que ela não sente dor igual as outras mulheres. Quando falamos de parto, o recorte da mulher negra é ainda mais cruel que o da mulher branca. A violência da mulher é tão profunda que, falando em uma escala, a mulher negra está lá embaixo. Tudo o que acontece com a mulher, acontece com uma mulher negra em duas vezes. É uma das mais prejudicadas”, afirma.

Para ela, o corpo da mulher negra é muito mais invadido. “Há um outro nível de objetificação quando você fala da mulher negra. A ideia de que ela é mais fogosa, que ela está sempre querendo e de que o corpo dela é mais sexy. Não precisa pedir permissão.  Há uma herança histórica de que a mulher negra nem existia, existia apenas para servir aos seus senhores em qualquer sentido que fosse. Então, é nosso dever compreender que isso acontece com ela porque isso é noção de privilégio”, encerra.

 

[1] Aluna do quinto semestre do curso de Jornalismo e monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s