Sustentabilidade e investimentos: as chaves para o Brasil prosperar no mercado internacional de produtos agrícolas

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O Brasil tem 7% do comércio mundial de produtos agrícolas, mas quer chegar a 10%

Por: Evandro Almeida Jr [aluno do 8º semestre de Jornalismo]

Apesar de ser um dos maiores produtores de alimentos do planeta, a agricultura e a pecuária brasileira costumam ser alvos de críticas que, muitas vezes, prejudicam o crescimento do País no mercado internacional. Hoje, o Brasil tem 7% do comércio mundial de produtos agrícolas, mas quer chegar a 10%. Para isso, é preciso investir em sustentabilidade e apresentar os números do campo brasileiro mundo afora, avaliam especialistas de diversos setores do agronegócio brasileiro ouvidos pela reportagem.

A busca por maior espaço no comércio internacional, demanda antiga do setor de agronegócio, tem sido intensificada nos últimos anos. Para quem atua no setor, é consenso que uma imagem mais atrelada às práticas sustentáveis é fundamental para ajudar o país a conquistar novos mercados e a desmistificar preconceitos muitas vezes baseados em erros pontuais do passado que vêm sendo corrigidos com o passar do tempo.

Um exemplo de número pouco conhecido é o quanto o Brasil utiliza de seu território para a agricultura. Pense rápido: Você diria que é apenas 7,6%? Pois é o que comprova um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) divulgado no fim do ano passado. A agência aeroespacial dos EUA, a Nasa, chegou à conclusão similar: 8%. É muito mais do que países europeus como o Reino Unido, que cultiva em 64% de seu território e a Alemanha, que usa 57%. Grandes concorrentes, Estados Unidos usam 18,3%, a China, 17,7%; e a Índia, 60,5%.

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Investimentos em pesquisas para aumentar a produtividade são importantes para o desenvolvimento. Na foto, campo experimental de soja e milho na Esalq, em Piracicaba (SP).

Além disso, não é exagero dizer que a agricultura brasileira ajudou a “segurar” a economia nacional durante os últimos anos de recessão, reforçando ainda mais a importância estratégica do setor. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), em 2017 o agronegócio representou 23,5% de tudo o que o Brasil produziu.

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Lá fora, no entanto, a imagem da agricultura brasileira é de um País que produz com desmatamento, desrespeita regras ambientais e tem até trabalho escravo. Saulo Nogueira, especialista em exportação e barreiras comerciais, explica que apesar da existência de problemas em algumas práticas da agricultura brasileira, hoje eles são minoria.

“Existem problemas em regiões de fronteira com florestas de expansão do plantio de celulose ou de destruição de florestas para pastagem. Porém, são mínimos se comparados com o restante dos plantios. Não é um problema generalizado como os estrangeiros demonstram”, afirma Nogueira.

A imagem se embasa, justamente, em problemas de um passado que já foi superado pela imensa maioria dos cerca de 15 milhões de agricultores brasileiros. Atualmente, 66% do território brasileiro é preservado com florestas nativas, sendo 11% delas em propriedades rurais. “Esse é um crédito que a soja brasileira e qualquer outro produto agropecuário do Brasil é capaz de oferecer”, comenta Gustavo Chavaglia, presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) de São Paulo, uma das principais entidades do setor.

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Produção brasileira de soja cresceu mais de 200% em menos de 20 anos

A soja sempre teve grande importância no cenário mundial. Conforme dados da Aprosoja, em 17 anos a produção mundial aumentou 93%. Nacionalmente, o crescimento da produção foi de 201% neste mesmo período. 

De acordo com Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e professor do núcleo de agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), esses dados são imprescindíveis para mudar a visão dos clientes internacionais. “A única forma de fazer esses números chegarem a todo mundo é a sua repetição através da mídia e em eventos nacionais e internacionais”, aconselha.

Vantagens

Não são poucos os fatores que contribuem para o agronegócio brasileiro em comparação com concorrentes de peso. Segundo Thiago Lima, professor de relações internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Brasil se destaca em quatro áreas-chaves: produção de commodities, presença de institutos de pesquisa, boa geografia e a taxa de câmbio.

Nas commodities, Lima diz que o Brasil é um dos maiores produtores mundiais com alta competitividade por fatores como geografia favorável, abundância de água, recursos naturais e terra arável. Não por acaso o Brasil é o maior exportador de produtos café, suco de laranja, açúcar, carne de frango e está entre os três principais produtores de dezenas de alimentos.

Nas pesquisas, entidades como a Embrapa e dezenas de universidades têm capacidade reconhecida de melhorar a qualidade das plantas, do gado e do solo, gerando renda e desenvolvimento. Nas políticas econômicas, o responsável pelo sucesso é o câmbio desvalorizado. “Isso favorece o produtor nacional, porque aumenta sua receita e capacidade de investimento”, explica.

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Na avaliação de Saulo Nogueira, a disponibilidade de terra para cultivo é a maior vantagem. “Muitos europeus e asiáticos não têm para onde expandir suas plantações. Enquanto isso, o Brasil tem áreas em abundância”, ressalta. Segundo ele, esse é um diferencial tão importante quanto às condições climáticas que permitem ao País plantar mais de uma safra por ano e intensificar a produção de grãos.

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A Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP) é a principal universidade agrícola do Brasil. Com quase 120 anos de história, é considerada umas das cinco principais escolas de agronegócio do planeta

O Brasil é uma potência agrícola mundial e a educação tem tudo a ver com isso. Universidades públicas importantes na formação de novos profissionais como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) no estado de São Paulo, a Universidade de Viçosa e a de Lavras, em Minas Gerais, são apenas alguns exemplos. Segundo Saulo Nogueira, essas instituições são “extremamente relevantes para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro.”

“Instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Embrapa também colaboram para as pesquisas agrícolas.”

Diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Marcio Portocarrero destaca também a sustentabilidade como um diferencial de muitos produtores brasileiros. “Conquistamos uma confiabilidade que não tínhamos antes”, diz ele, citando que certificações e respeito a padrões internacionais têm sido cada vez mais exigidos por compradores internacionais.

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O algodão brasileiro, hoje uma das principais commmodities agrícolas do Brasil, tem até um selo criado pela própria Abrapa. “Isso dá ao produtor uma auditoria de qualidade. Etapas precisam ser cumpridas para que o material tenha uma origem sustentável. Ele recebe um certificado de aprovação”, acrescenta Portocarrero.

O selo de qualidade usado internacionalmente é o BCI (Better Cotton Initiative). Nele há parâmetros que vão desde o cultivo até a relação com o trabalhador que o transforma em produto. No Brasil, a Abrapa usa o ABR justamente devido à legislação brasileira. Suas normas são semelhantes às do BCI.  

Desvantagens

Ainda que existem ótimos fatores capazes de fazer o Brasil prosperar no agronegócio mundial, nem tudo são flores. Apesar dos pontos positivos, Saulo Nogueira destaca que a logística, velha conhecida do setor produtivo, é um dos problemas. A dificuldade de acesso aos portos e de escoar a safra prejudicam a competitividade do agro brasileiro, inviabilizando grades aumentos na produção. “Enquanto outros países investem na malha ferroviária, aqui continuamos nas rodovias. Isso é um problema: basta olhar o que a greve dos caminhoneiros proporcionou”. O saldo foi dezenas de frigoríficos parados, caminhões amontoados nas estradas, produtos perecendo no caminho e preços disparando nos mercados. Tudo por conta da dependência do sistema rodoviário, avalia Nogueira.

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Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cita outro fator que prejudica o País. “O Brasil tem que ter uma política externa autônoma. Decidir e ter assertividade com quem vai negociar, sem medo de chatear os Estados Unidos — segundo maior parceiro comercial do Brasil”, avalia.

O ex-ministro Roberto Rodrigues lembra outro ponto: a participação tímida em eventos de agronegócio ao redor do planeta. “Nossa participação é pequena porque ainda não temos a cultura de buscar mercados lá fora. Sempre fomos procurados por interessados em nossos produtos”, diz.

Rodrigues afirma ainda que a ação depende mais do setor privado que do governo, embora qualifique o Ministério da Agricultura como “atuante” na abertura de novos mercados.

Como mudar?

Para Roberto Rodrigues, deve haver cada vez mais atenção na questão da imagem, como ocorre com a proteína animal do País. “É necessário um intenso trabalho de marketing para mostrar as vantagens competitivas de nossa carne. Mostrar a maneira sustentável como ela é produzida aqui. Este trabalho deve ser feito em conjunto entre o setor privado, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e as Embaixadas na Ásia”, orienta Rodrigues.

Saulo Nogueira concorda. Para ele, é preciso investir pesado no marketing e usar o que o Brasil tem a seu favor. “Melhorar nossa imagem é muito importante, principalmente na área da sustentabilidade. Tanto em termos sociais e econômicos, pois agrega valor”.

Thiago Lima, da UFPB, lembra ainda de outras possibilidades. Para ele, é preciso diferenciar o produto, detalhar sua origem, em especial quando proveniente de agricultores familiares, que representam 70% dos proprietários rurais no Brasil. “Construir a imagem de que o produto é feito pelo pequeno produtor e contribui para a renda de famílias humildes é uma grande estratégia para conseguir mercados mais sofisticados”, explica. É o que fazem, por exemplo, associações e cooperativas que produzem cafés especiais em Minas Gerais, como a Cooxupé, a maior do mundo. Hoje, o Brasil é o principal produtor de cafés especiais do planeta e é reconhecido mundialmente por compradores pela qualidade única de seu produto.

“Outro caminho seria investir em qualidade para atingir os países desenvolvidos, mas isso pode esbarrar no protecionismo. O Brasil parece não ter poder negociador suficiente para derrubar essas proteções”, afirma Lima.

O presidente da Aprosoja de São Paulo, Gustavo Chavaglia, destaca a necessidade de promover a sustentabilidade no cenário internacional. “É preciso ampliar as relações internacionais tentando mostrar para representantes de outros países como é toda a nossa cadeia de produção”. Ele também cita a necessidade de haver mais adidos agrícolas nas embaixadas brasileiras ao redor do mundo.

Adidos agrícolas

Para estreitar os laços comerciais, o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) junto ao Ministério de Relações Exteriores (MRE) investiram nos adidos agrícolas, profissionais que representam a agricultura colocados estrategicamente em países onde o Brasil tenta expandir suas exportações.

Mas o que eles fazem exatamente? “A função do adido agrícola vem da necessidade de profissionais que defendam os interesses da agricultura brasileira in loco junto aos principais parceiros comerciais do país pelo mundo”, explica Edilene Cambraia Soares, coordenadora do trabalho desses profissionais na secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio (SRI) do Mapa.

Um de seus focos é a internacionalização da agricultura, uma das maiores demandas do setor produtivo. “Entre suas tarefas mais importantes estão a busca por melhores condições de acesso de produtos do agronegócio, o estudo de políticas agrícolas e legislações de interesse da agricultura de seus países”, conta Edilene. Eles também acompanham ações de cooperação na área agrícola, incluindo políticas ambientais, de combate à fome e de desenvolvimento rural.

Essa atuação(dos adidos) é de extrema necessidade para que possamos ampliar nossas fronteiras e buscar novas empresas compradoras para os nossos produtos” – Gustavo Chavaglia, presidente da Aprosoja-SP

O Brasil conta com 14 adidos agrícolas, atuando em mais de um país (mapa abaixo), junto a suas missões diplomáticas. Eles estão presentes em: Buenos Aires, Bruxelas, Genebra, Moscou, Pequim, Pretória, Tóquio e Washington — desde 2010 — e Arábia Saudita, Coreia do Sul, Índia, México, Tailândia e Vietnã — desde 2017. Todos trabalham estrategicamente em uma abrangência de 41 países.

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Todos os países e blocos onde há representação brasileira. Dados: MAPA 09/03/2017

Os diplomatas do agronegócio também são responsáveis pela manutenção de mercados, análises de barreiras sanitárias e auxílio na elaboração de acordos de comércio internacional. Com isso, facilitam as relações de comércio nos países onde atuam. “A manutenção de mercados já conquistados também é tarefa complexa e tem sido uma das principais atividades dos adidos”, diz Edilene.

“Os adidos favorecem a nossa comunicação com o governo do país e as empresas que demonstram interesse em nossos produtos. Dessa forma, nos alertam sobre as necessidades e critérios das demandas”, analisa Chavaglia, da Aprosoja-SP.

Outras entidades representativas como a Associação Brasileira dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), que reúne os principais vendedores de suco de laranja do Brasil, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira também lutam por maior representação do Brasil no mercado internacional.
Em eventos dessas instituições, é recorrente a necessidade de melhoria da imagem da agricultura no exterior, a busca por mais acordos comerciais e pelo estreitamento das relações com outros países.

Os resultados obtidos com o trabalho direto dos adidos foram relevantes principalmente para o setor de proteína animal. Dentre eles, a abertura do mercado dos Estados Unidos para a compra de carne bovina; de carne suína para o mercado japonês, coreano e sul-africano e o aumento de indústrias brasileiras credenciadas para exportar frango e carne suína para a China. Para o ex-ministro Roberto Rodrigues, tentar reduzir os subsídios internos que distorcem a concorrência é um dos maiores desafios dos adidos brasileiros.

“Os adidos agrícolas se tornaram fundamentais não somente para defender os interesses de seus países, mas também para zelar pelas conquistas econômicas como um todo.” Edilene Cambraia Soares, Coordenadora de Gestão dos Adidos Agrícolas

Quando o Brasil teve queda repentina nas exportações de proteína animal — principalmente na Ásia — devido à Operação Carne Fraca, com empresas importantes acusadas de adulterar a carne que vendiam, a imagem do Brasil ficou prejudicada e os adidos foram cruciais para reverter o cenário. “Em países que tínhamos adidos, a reversão levou três dias, já os que não tinham levaram oito”, exemplifica o especialista Saulo Nogueira.

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Setor de proteína animal é um dos principais beneficiados pelas ações dos adidos agrícolas espalhados ao redor do mundo

Segundo Edilene, faz parte da estratégia do governo a maior atuação dos adidos agrícolas e a ampliação do número de mercados com esses profissionais. “Isso para incrementar a participação do Brasil como fornecedor de produtos do agronegócio mundial”, diz. “A meta do ministério é aumentar de 7% para 10% a participação da produção brasileira nas exportações mundiais de produtos agrícolas”.

Futuro

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o mundo terá 9 bilhões de habitantes em 2050. Para isso, o incremento da demanda de grãos será de 900 milhões de toneladas e na de carne, de 270 milhões de toneladas.

Edilene, do Mapa, entende que o Brasil é a principal nação capaz de atender essa demanda. “É um dos únicos países capazes de suprir essa demanda crescente. Isso nos posiciona no centro de uma questão de importância mundial”, diz.

Contato

A reportagem entrou em contato com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e com a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), mas elas não responderam aos questionamentos enviados.

 

  • Um agradecimento a todos os entrevistados que acreditaram no projeto e ajudaram a se concretizar. Em especial ao Paulo, Patrícia, Catarina, Vinicius, Michele, Nadini, Vanessa, Evaldo, Edilaine, a Mapa e ao Centro Universitário FIAM-FAAM pelo apoio.

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