HQs a serviço da sociedade

Destaque no cinema no quesito representatividade, os super-heróis contribuem com as mudanças da sociedade desde que suas HQs foram criadas

Por Rafael Silveira [1]

Edilaine Felix [2]

Filmes baseados em histórias em quadrinhos são a nova onda de Hollywood. Na metade do mês de setembro foi divulgado o trailer de Capitã Marvel, novo filme da Marvel Studios que tem data de estreia marcado para março de 2019. A película apresenta uma personagem feminina e militar como protagonista e pega o lastro de Mulher Maravilha (2017) e Pantera Negra (2018), que tendo, respectivamente, uma super-heroína e um elenco majoritariamente negro, se tornaram marcos da representatividade no cinema.

Mas engana-se quem pensa que essas questões sociais são novidades ou coisa do momento. No que tange as HQs, isso é inerente a mídia. As duas maiores editoras americanas do gênero – Marvel e DC – utilizam dessa temática desde seu início na década de 1930.

A figura da mulher

Mulher Maravilha, da DC, foi criada pelo Dr. William Moulton Marston, psicólogo famoso que também foi o inventor do polígrafo, em 1941. A personagem já nasceu como símbolo feminista, uma vez que sua concepção se deve a uma ideia da esposa de Moulton em uma época em que os heróis eram predominantemente masculinos.

Ela não foi a primeira super-heroína a ser criada. Antes dela personagens como a Miss America e Lady Luck da Quality Comics já existiam. O que a diferenciou das demais foi o fato de, por ter sido criada por um conceituado psicólogo, possuir uma maior complexidade no que diz respeito a personalidade. Uma mulher forte já em sua época e que transcendeu a barreira do tempo, continuando relevante na contemporaneidade.

Capitã Marvel, da Marvel, é outro símbolo do feminismo. Criada em 1968 por Roy Thomas e Gene Colan, a personagem foi durante um tempo retratada apenas como membro da Força Aérea Americana, o que por si só representa muita coisa, uma vez que ainda nos dias de hoje mulheres militares são vistas com estranhamento, apesar de já ter se tornado uma situação mais corriqueira.

A luta contra o preconceito

Em 1971, uma época da sociedade americana em que as mulheres começaram a ter maior importância no mercado de trabalho, a personagem estreou de fato como super-heroína sob a alcunha de Ms. Marvel. A escolha de nome por meio da editora é também um marco. Em inglês, o termo Ms. é utilizado quando não se sabe se a mulher é casada (Mrs.) ou solteira (Miss). O estado civil da personagem não importava, o que queria se destacar era a sua independência, assim como muitas mulheres na época, e ainda hoje.

Também como sinal dos tempos, Pantera Negra, o primeiro super-herói negro, surgiu em 1963 no auge do Movimento dos Direitos Civis americanos. Um personagem que é também um rei e líder da nação mais tecnologicamente avançada do planeta. Além de uma ótima representação do negro, é também uma grandiosa forma de se posicionar politicamente.

Na mesma época ainda surgiram os X-Men. Ainda hoje, a equipe é uma das melhores representações de inclusão social na mídia. O preconceito mutante enraizado nas páginas de suas revistas são uma metáfora ao preconceito racial do mundo real. Os personagens Charles Xavier e Erik Lensherr, o Magneto, são baseados em duas figuras importantes: Marthin Luther King Jr. e Malcolm X.

Hoje, os X-Men extrapolam o conflito que inspirou sua criação. Eles representam o preconceito de maneira mais global. A ditadura da aparência é representada, assim como o fanatismo e a intolerância religiosa. Diversas etnias e nacionalidades são representadas nos componentes da equipe. Existem russos, brasileiros, africanos, mexicanos, por exemplo, nas fileiras da equipe; judeus, muçulmanos, católicos, pagãos e ateus; LGBTs e héteros; Personagens antropomórficos e com corpos de diferentes cores (azuis, verdes, rosas); deficientes físicos, idosos, jovens, gordos e magros; extrovertidos e introvertidos.

Polêmicas atuais

Atualmente, muito da representatividade atrelada a mídia está ligada ao marketing. Consequentemente, algumas das decisões tomadas acabam causando polêmicas entre os leitores.

Uma delas foi ter tornado Bobby Drake, personagem dos X-Men e por mais de cinco décadas hétero, em um personagem homossexual. Embora a intenção de transformar um assim um personagem clássico tenha louvável do ponto de vista social por parte do público representado, a mudança sem respaldo narrativo caiu mal com leitores mais conservadores e até com Stan Lee, um dos criadores do personagem, que, à época, se manifestou em entrevista à Radio 4 da BBC.

“Eu não estive envolvido nisso, deve ter sido algo que surgiu depois que eu parei de escrever os quadrinhos. Na verdade eu nunca concebi um personagem gay. Se eles eram, eu não fiz disso um fato. Eu não estava ciente das atividades sexuais dos meus personagens”, disse Stan Lee.

Arlequina, personagem da DC, também teve sua cota de polêmicas. Retratada por muito tempo em um relacionamento abusivo com o Coringa, recentemente a personagem deu a volta por cima, se livrou de seu ex e engatou um relacionamento amoro com outra personagem feminina.

Mesmo que muito do que é feito hoje seja para atrair novos nichos de consumidores, a mídia de quadrinhos coloca muito do dedo na ferida da sociedade.

As outras editoras e os artistas independentes

Super-heróis ensinam, mas não são unanimidade. Uma das críticas mais comuns de pessoas não habituadas a lerem revistas em quadrinhos, é que elas não gostam de histórias de heróis. Apesar do gênero ser maioria nas HQs, ele não é o único. Outras editoras apostam em diferentes estilos de narrativas para criarem histórias únicas e tão socialmente reflexivas quanto possível.

A Image Comics, por exemplo, tem em seu catálogo Southern Bastards, uma HQ que retrata o preconceito racial e a violência do sul dos Estados Unidos, Saga, uma ficção científica com um romance inter-racial e toques de Romeu e Julieta, e The Wicked + The Divine que trata da devoção que a sociedade tem com celebridades.

Enquanto isso, a Vertigo apresenta ao mundo obras como Scalped, uma espécie de Família Soprano em uma comunidade indígena, tão negligenciadas em qualquer lugar do mundo atual, e The Kitchen, que trata da força feminina em um local dominado pela violência.

E ainda existe espaço para verdadeiras obras de arte, assim como acontece com qualquer outra mídia de massa. Un peu de bois et d’acier (Um pedaço de madeira e aço, no Brasil) do artista francês Christophe Chabouté, é uma HQ em preto e branco e sem falas cuja trama gira em torno de um banco de praça. Uma história para refletir sobre como não enxergamos o mundo a nossa volta.

A HQ na educação contemporânea

O espaço aberto pelos heróis vai além da representação plural da sociedade. Ele inspirou a criação de formatos para a mídia e deu mais estofo, transformando HQs em algo mais do que simples entretenimento.

The Fragile Framework (Desaplanar, no Brasil), é uma tese de doutorado escrita pelo matemático e cartunista Nick Sousanis. Uma tentativa de tornar mais acessível o conteúdo acadêmico. Tarefa difícil, uma vez que alguns elementos mais abstratos de seu trabalho são complicados de serem retratados na linguagem dos quadrinhos, mas bem-sucedida.

O site Cartoon Science criado por Matteo Farinella, da Universidade de Columbia, reúne uma coletânea de quadrinhos de ciências. “O verdadeiro valor das HQs é que elas podem envolver os leitores que são menos propensos a buscar outras formas de comunicação científica” disse Farinella em entrevista ao site de notícias G1.

No Brasil, o Centro de Pesquisa, Inovação e Disseminação em Neuromatemática (NeuroMat), ligado a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), lançou em maio deste ano a HQ “Os Braços de Nildo e Rony” com o objetivo de informar e orientar paciente com lesão traumática no plexo braquial.

 

1] Aluno do quarto semestre de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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