RESENHA: Abusado: O dono do Morro Dona Marta – realidades invisíveis

Livro do Jornalista Caco Barcelos é referencial no jornalismo investigativo e literário

Por Ana Luiza Antunes [1]

Edilaine Felix [2]

 

O livro reportagem escrito pelo jornalista Caco Barcellos foi publicado no ano de 2003, e até hoje é referencial para que deseja conhecer a escrita literária que este gênero do jornalismo proporciona. O livro Abusado foi feito com base nas reportagens investigativas que Caco realizou no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, por quatro anos. Nesse período o jornalista pôde conviver com uma outra realidade dominante no país: aquela que enfatiza a desigualdade social e o desprezo pelo ser humano.

Abusado conta a trajetória de Juliano VP – codinome de um famoso traficante carioca dos anos 1990 -, sua ascensão no mundo do crime, ao tráfico de drogas e as diversas situações que se submeteu devido ao desejo de se tornar membro da principal facção criminosa do Estado, o Comando Vermelho. Caco também relata a lealdade de seus companheiros de infância, que juntos crescem e vão se aperfeiçoando no “lado certo da vida errada”.

Ao longo do livro, Caco destrincha a pesada realidade do grupo, suas dificuldades de ascensão social e como esses movimentos ganharam força com o passar dos anos e dos diferentes comandos no Morro. A história possibilita que o leitor descubra a criação do Morro Dona Marta, seus fundadores e também os cabeças, aqueles que estiveram envolvidos no nascimento do Comando Vermelho. É possível perceber também que a histórica dos morros do Rio de Janeiro é muito mais profunda e esconde descasos contra o ser humano e direitos individuais.

É um livro que aborda com detalhes as guerras ocorridas na facção, as vinganças e traições que nunca chegam ao fim, ilustradas com fotos explícitas que retratam essa outra realidade. A sede de poder e reconhecimento dentro da comunidade sempre falou mais alto do que o pacifismo entre as facções. Entre ameaças e guerras, o comando dos morros sempre esteve vulnerável, e cabe ao líder obter estratégias que apaziguassem por vez a situação, mesmo que isso significasse dar fim a vida de quem o perturba.

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Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro – Fonte: Fotos Públicas

Assim como muitos no Morro possuíam suas desavenças, perseguições policiais fomentavam ainda a mais a violência nas comunidades do Estado. A realidade social do Morro Dona Marta fez com que os indivíduos que ali sobrevivem fossem enxergados como minorias e excluídos sociais. Uma passagem muito importante do livro mostra que os jovens da comunidade enxergavam no tráfico de drogas um caminho mais rápido para conseguir dinheiro e ajudar a família, o que faz refletir sobre a precariedade de políticas públicas.

No entanto, a violência não afetava apenas as comunidades cariocas. No asfalto – como é denominado a classe média e alta pelo livro – situações de agressão também convocavam jovens para o mundo do crime, como uma forma de sobressair e promover mais respeito diante de terceiros. O fato é que o livro traz questionamentos sobre onde de verdade se encontra o problema da violência no Rio: será realmente nos morros ou no desenvolvimento social que o governo pouco se importa em executar?

Para quem gosta de curiosidades, o livro conta sobre um momento marcante na história do Morro Dona Marta: o dia em que Michael Jackson gravou o clipe “They don’t care about us” (Eles não ligam para a gente) nos becos e vielas, que foram cenário para também criticar que tem tudo a ver com a realidade do Estado. O dia que os homens de Juliano escoltaram o astro do pop e como isso influenciou na popularidade do Comando Vermelho no Morro, assim como acirrou a rixa com o Complexão do Alemão.

A história do Abusado aborda muitas questões de uma realidade não comum a todos, mas que todos deveriam se interessar em saber, para que um debate mais sério fosse realizado com fundamentos. É um livro que ao mesmo tempo que nos faz refletir, promove uma forte crítica social que ninguém quer enxergar e entulha com pré-julgamentos e estereótipos. Caco dá uma aula de jornalismo literário e investigativo, abordando também questões éticas da profissão ao tratar de tema sensíveis. Mostra que o jornalista além de precisar de coragem para escrever sobre os problemas, precisa de uma coragem muito maior para publicá-las e assim, denunciá-las.

 

[1] Aluna do quarto semestre de Jornalismo e monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

 

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