Exposição discute o reconhecimento feminino nas artes

Mostra traz obras de artistas latino-americanas estará na Pinacoteca até 18 de novembro

Por Bianca Matz [1]

Edilaine Felix [2]

Está em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo, localizada no bairro da Luz, juntamente com o Ministério da Cultura e Associação Arte e Cultura (APAC), até 19 de novembro, a exposição Mulheres Radicais, um recorte da arte feminina na América Latina, entre 1960 e 1985.  A instalação acontece no primeiro andar do espaço e reúne videoarte, fotografias, pinturas, performances, bricolagem e objetos.

Dentre os 280 trabalhos presentes, foram reunidas mais de 120 artistas mulheres de 15 nacionalidades diferentes. O movimento e o olhar feminista, que teve os seus primeiros indícios entre os séculos XV e XVIII e, adquiriram forças na Revolução Francesa e no Iluminismo, estão em boa parte das obras presentes.

O acervo foi dividido em nove partes: Autorretrato, Paisagem do Corpo, Mapeando o Corpo, Performance do Corpo, Resistência e Medo, O Poder das Palavras, Lugares Sociais, O Erótico e Feminismos.

Dentre essas divisões podemos destacar O Erótico, em que há representações do que é reconhecido como algo vulgar pelo senso comum, porém é da natureza feminina. Na tela Ruído, de 1984, da família latino-americana Karen Lamassonne, é possível ouvir a televisão ao lado, dando uma sensação 3D para a obra.

Ruído
Obra O Ruído (crédito: Bianca Matz)

Além dessa, outras duas pinturas de Lamassonne ganham destaque, a Baño I (Banheiro I), de 197, revela o cotidiano da mulher, como a higiene pessoal feminina realizada em bidê, objeto muito comum em banheiros de casas antigas. E na segunda, Baño IV (Banheiro IV), de 1980, a mulher está sentada no vaso sanitário e vemos como somos educadas a usar o banheiro.

Bano I e IV
Obra Baño I e IV (crédito: Bianca Matz)

O Colchón (Colchão), de 1964-1985, da argentina Marta Minujín, quer revelar as atividades físicas íntimas, como o descanso ou o sexo. Outro capítulo é a Paisagem do Corpo, com reflexões sobre o corpo e como estamos habituados com certos ambientes. Estamos habituados a ver os mesmos elementos nas fotografias, porém nos incomodamos quando somos apresentados a algo diferente do convencional.

Colchón
Obra o Colchón (crédito: Bianca Matz)

Entramos na discussão de o quanto confiamos nas pessoas, pois quem irá garantir que enquanto estiver dormindo, você estará totalmente seguro com a pessoa ao seu lado? Em uma das imagens da sala, a fotógrafa e ativista naturalizada brasileira Cláudia Andujar nos mostra A Vulnerabilidade do Ser, de 1974. A imagem revela uma visão em primeira pessoa em plongée, vista de cima para baixo, algo semelhante a um precipício com um homem deitado, aparentemente, dormindo e ela o assistindo.

A Vulnerabilidade do Ser
Obra A Vulnerabilidade do Ser (crédito: Bianca Matz)

No trio de pinturas sem títulos, dos anos 1972 e 1973, da mineira Wilma Martins, ela faz um momento reflexivo em seus quadros, gerando questionamento sobre o verdadeiro lugar dos seres e objetos em nossas vidas, ao nos depararmos com um cenário moderno e urbano, como um escritório, um banheiro e uma cozinha, totalmente brancos, porém, em destaque, animais foram acrescentados com cores.

Sem Título Wilma Martins
Trio de pinturas sem títulos, dos anos 1972 e 1973, da mineira Wilma Martins(crédito: Bianca Matz)

Na sala Mapeando o Corpo, vemos algo que, ainda nos tempos de hoje, precisamos lutar, como um salário igual ao dos homens, por exemplo. A mexicana Maris Bustamante traz isso à tona em sua fotografia El Pene como Instrumento de Trabajo (O Pênis como Instrumento de Trabalho), de 1982, mostrando que muitas vezes, o problema não está ligado à nossa capacidade, e sim, à nossa genitália.

El Pene como Instrumento de Trabajo
Obra El Pene como Instrumento de Trabajo (crédito: Bianca Matz)

Aparato Reproductor de La Mujer (Aparelho Reprodutor da Mulher), de 1972, da venezuelana Margot Römer trata da questão de como as mulheres são vistas pela sociedade machista, como uma abertura e meras fábricas de gerar filhos.

Aparato Reproductor de La Mujer
Obra Aparato Reproductor de La Mujer (crédito: Bianca Matz)

Na parte O Poder das Palavras, é possível destacar o emocional, o modo como sentimos tudo em nossa volta, por mais que possa parecer algo habitual. Quem é amante da escrita, irá se sensibilizar com a obra Poema da paulista Lenora de Barros, de 1979. A relação com a escritura é forte e profunda, um verdadeiro romance que vemos entre a mulher e a máquina datilográfica.

Poema
Obra Poema (crédito: Bianca Matz)

Nós somos performances ambulantes, enquanto vivemos, estamos fazendo a nossa arte. Isso é o que a peruana Gloria Gómez-Sánchez expõe em um cartaz sem título, de 1970, com letras garrafais: “El espacio de esta exposición es el de tu mente, haz de tu vida la obra”, ou seja, “O espaço desta exposição é da sua mente, faça da sua vida a obra”. Uma obra que grita, sem ter que fazer barulho.

 

[1] Aluna do quarto semestre de Jornalismo e estagiário da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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