O abstracionismo sob o olhar de Hilma af Klint

A artista superou todas as barreiras em uma sociedade dominada por homens

Por Bianca Matz [1]

Edilaine Felix [2]

Entre os dias 03 de março e 16 de julho de 2018, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, localizada no bairro da Luz, a exposição Mundos Possíveis trouxe mais de 130 obras de Hilma af Klint mostradas pela primeira vez na América Latina ao público.

Hilma, nascida na Suécia, foi pioneira no abstracionismo e considerada por muitos como bruxa ou pintora “possuída”, por ter inspiração espiritual para pintar suas telas. Ela fez parte do grupo artístico “As Cinco” composto apenas por mulheres que criavam a partir da mesma técnica. Suas pinturas passavam pela abstração e o surrealismo, todas com paleta de cores vívidas e uma enorme simbologia.

Ela formou-se na Real Academia de Belas Artes, porém não permaneceu a vida inteira dedicando-se às artes, ela tinha contato com Rudolf Steiner, criador da Antroposofia, uma ciência espiritual, na qual Hilma tinha proximidade e, além disso, Steiner foi responsável por uni-la à Sociedade Teosófica, estudando a teosofia, um conjunto de doutrinas religiosas de caráter sincrético e místico.

Por ser uma mulher à frente do seu tempo, tendo, por exemplo, ingressado no ensino superior, no qual mulheres eram desencorajadas, Hilma sempre desenvolveu seus próprios estudos e técnicas. Após a sua morte, ela deixou em seu testamento que só permitiria a exposição de suas obras após 20 anos de seu falecimento, pois temia não ser valorizada ou compreendida.

Dentre as obras presentes no acervo, é impossível não notarmos a grandiosidade presente na série As Dez Maiores, composto por dez quadros com três metros de altura. Em algumas partes da instalação, vemos bancos de madeira para que possamos sentar e admirar cada detalhe da obra, sentir e absorver a experiência por completo.

É comum notarmos flores presentes em diversas obras, como em Childhood, The Ten Largest, No. 1, Group IV (Infância, As Dez Maiores, Nº 1, Grupo IV), de 1907, que retrata a infância, a primeira parte das nossas vidas. Com letras enormes em formato cursivo remetendo ao aprendizado da escrita e da fala, formas geométricas, flores e espirais.

As Dez Maiores Childhood_credito Bianca Matz
Obra de Hilma af Klint, Childhood, The Ten Largest, No. 1, Group IV. (Crédito: Bianca Matz)

Outra obra que pode ser destacada é Youth, The Ten Largest, No. 3, Group IV (Juventude, As Dez Maiores, Nº 3, Grupo IV), de 1907. A obra pode ser comparada com a nossa adolescência, quando descobrimos sensações e temos experiências únicas, adquirimos contato e relações com outras pessoas, de tonalidades quentes, formatos que lembram silhuetas humanas e mais flores.

As Dez Maiores Youth_credito Bianca Matz
Obras de Hilma af Klint, Youth, The Ten Largest, No. 3, Group IV, exposição (credito Bianca Matz)

Adulthood, The Ten Largestm No.6, Group IV (Vida Adulta, As Dez Maiores, Nº 6, Grupo IV), de 1907, é a fase adulta de todos os seres humanos. Com tonalidades em roxo, há formatos que se assemelham a reprodução feminina, como dois ovários, e logo abaixo, novos seres surgem, juntos às letras cursivas novamente, como um ciclo novo.

As Dez Maiores Adulthood_credito Bianca Matz
Obra de Hilma af Klint, Adulthood, The Ten Largestm No.6, Group IV (crédito: Bianca Matz)

O trio de quadros da série Retábulos, de quase dois metros e meio, leva o espectador a fazer análises de como o sincretismo influencia em nossas vidas, desde os símbolos que aparecem de forma inofensiva, porém permanecem em nossa mente. O primeiro é Altarpiece, No. 1, Group X (Retábulo, Nº 1, Grupo X), de 1915, que mostra uma obra multicolorida com uma ligação do mundo físico e espiritual através do símbolo da pirâmide, em que quanto mais estamos no topo, mais próximos estamos do que acreditamos. E o Sol que ilumina a todos é uma representação de uma divindade onipresente que sempre nos olha.

Enquanto a obra anterior lembra o divino, Altarpiece, No. 2, Group X (Retábulo, Nº 2, Grupo X), lembra do que devemos nos afastar. É a mesma pirâmide vista anteriormente, porém invertida, com tons em vermelho e preto, e algo que remete à Lua no fundo.

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Obra de de Hilma af Klint , Altarpiece 1, 2 e 3 (crédito Bianca Matz)

E, finalmente Altarpiece, No. 3, Group X (Retábulo, Nº 3, Grupo X), de 1915, revela um ciclo sem começo ou fim, bom ou mau, todas as cores são vibrantes e é notável como precisamos de todos os elementos, mesmo os considerados ruins, para ter o mundo que vivemos, em equilíbrio, como o símbolo do taoísmo Yin-Yang.

Além dessas telas maiores, há também outros desenhos mais simples, em uma escala menor, que são estudos botânicos feitos pela af Klint. São pinturas em fundo branco com uma espécie de flor colorida e detalhada.

A exposição acompanhava folhetos dupla face com informações sobre cada pintura e um manual para facilitar a leitura, destacando cada elemento, sendo uma ponte da mente de Hilma ao público.

 

[1] Aluna do quarto semestre de Jornalismo e estagiária da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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