Diálogo aberto sobre Liberdade Religiosa encerra os debates do evento Rodas de Conversa

Alunos e convidados falaram sobre intolerância, pluralidade e coexistência entre o indivíduo e a religião

[1]Por Ana Luiza Antunes Soares

[2] Nadini Lopes

Na noite desta quarta-feira (5), o Campus Ana Rosa do FIAM-FAAM promoveu a última Roda de Conversas desenvolvida pelo setor de Responsabilidade Social do Complexo Educacional FMU-FIAMFAAM. Depois de cinco importantes debates, realizados durante o mês de agosto, o evento chega ao fim com um diálogo essencial para a formação da opinião pública: Liberdade Religiosa.

O NAP – Núcleo de Apoio Psicopedagógico -, através dessa iniciativa, teve como objetivo trazer temas que conscientizassem sobre a diversidade cultural, abrissem espaço para as minorias e criassem um local no qual a pluralidade fosse a essência, despertando nos alunos a necessidade do debate coletivo, visando formá-los como cidadãos que reconhecem as diferenças e acima de tudo, as respeitam.

De acordo com a Professora Ms. Denise C. C. Marchesoni, Coordenadora de Qualidade Acadêmica FMU/FIAM-FAAM, a ideia dos debates está alinhada a diversos outros temas sociais: “Em 2018 essa ação tornou-se integrante da Agenda de Responsabilidade Social compostas por diversas atividades que são desenvolvidas ao longo do ano. Em constante alinhamento com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU-AGENDA 2030), tratou-se de temas como: deficiência, gênero, orientação sexual, raça e religião”.

Denise ainda ressaltou que o apoio do NAP auxiliou esse processo. “Contou-se como facilitadores e mediadores os profissionais no NAP e professores de TI de diferentes escolas”. E completou dizendo que eventos como esse são fundamentais porque fazem a diferença. “O diálogo é a forma mais rica de gerar conhecimento e transformar a sociedade”.

Mediado por Nadini Lopes, Professora de Jornalismo do Centro Universitário FIAM-FAAM, e uma das responsáveis pelo incentivo à roda, o início do debate foi marcado pelo engajamento à reflexão sobre as diferentes maneiras de expressão do indivíduo. “A universidade é um campo de livre pensamento”, afirma Nadini. “Não existe uma verdade absoluta no universo religioso”, completa.

Dessa forma os participantes puderam entender na prática a importância de inserimos nas universidades diálogos que abordem a diversidade social. Cada pessoa teve a oportunidade de falar sobre sua crença e ser ouvida por todos. “Há uma dificuldade da sociedade de coexistir e aceitar as diferenças. É preciso conscientizar as pessoas para que elas convivam sem que isso se torne um peso ou um grande esforço”, ressalta Nadini.

Brasil: Um Estado laico?

Um dos grandes pontos do debate foi a discussão sobre a laicidade do Estado. No Brasil, desde a Proclamação da República em 1989, o Estado é considerado laico e defensor da liberdade religiosa. Isso significa que o tanto o diálogo sobre religião quanto as expressões individuais são constitucionalmente garantidas e protegidas, como está escrito no parágrafo seis, artigo quinto da Constituição:

“é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”

De acordo com o Censo de 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as religiões que mais predominam no país são o cristianismo (64,6%) e o evangélico (22,2%), inclusive nas bancadas e edifícios públicos do governo, ao estampar símbolos de religiões específicas. “O Brasil é um país laico, não um país laicista. Ele não possui uma religião oficial, mas informalmente o catolicismo sempre esteve atrelado ao Estado”, disse Nadini.

Ainda de acordo com ela, o cristianismo é visto como a religião “correta” do país e, portanto, a mais reconhecida. “Existe um movimento no Brasil que eu costumo chamar de Cristofascismo. Os movimentos estão crescendo por que as pessoas estão se identificando ou daqui a pouco pode virar uma ditadura religiosa?”. E acrescenta os quatro B’s que dominam o país: “Bíblia, Bala, Boi e Banco são filtros colocados em todas as outras escolhas que regem o país, de forma a promover seus interesses religiosos e pessoais”.

O diálogo também comentou sobre a necessidade do governo em tomar decisões fundamentais em torno da religião. “O Estado deveria saber dividir o que é política pública do que é religião. Não se deve atrelar a decisão do aborto, por exemplo, através de uma crença, mas através da condição de saúde da mulher”, completou.

Contexto Histórico

Em tese, Constituição deveria garantir a defesa por qualquer tipo de intolerância, desrespeito, violência ou restrição. No entanto, uma pesquisa realizada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, diz que a religião que mais sofre com discriminações no Brasil são as afro-brasileiras. “Temos uma influência muito grande das religiões africanas devido ao contexto de escravidão que o país possui. Temos o candomblé, o Isa e a Umbanda que é um sincretismo entre o espiritismo e o catolicismo com o Candomblé, por isso que ela possui a figura de Jesus Cristo, por ser cristã”, explica Nadini.

“Nós temos um país muito plural, que atualmente está tendo um crescimento de religiões neopentecostais, devido a fatores históricos, pois quando uma religião não atende necessidades especificas da população, outros grupos acabam sendo criados”, afirma.

Nesse caminho, a noção de crença também foi discutida durante a roda como uma maneira de expressão pessoal. “Todo mundo deveria ser livre para se expressar como quiserem”, argumenta Nadini. E alunos puderam desenvolver esse diálogo de forma educativa em torno do que acreditam. ” Quando uma pessoa prega a sua religião para outras pessoas não é mais no sentido de compartilhar com alguém alguma coisa boa, mas de angariar mais pessoas para àquela crença”, argumenta Denise, aluna de História do Complexo FMU.

O diálogo prosseguiu com a explicação da relação entre o capitalismo e a religião como impulso da massa trabalhadora, surgindo ditados como “Deus ajuda quem cedo madruga”. Caminhos religiosos que surgiriam no final do século XIX e início do século XX para implantar na mente das pessoas que o lazer não era o caminho para alcançar Deus, mas sim o trabalho. Para Nadini, a fé individual deve ser separada das instituições, pois “diz respeito a algo intrínseco ao ser humano, aos valores que a pessoa carrega, as verdades que ela acredita e que independem de uma instituição”.

A ideia de convencer o outro a realizar uma ação baseada em sua religião também norteou o debate e auxiliou a compreender a noção de poder sobre o outro e como os processos históricos podem ajudar a entender algumas atitudes atuais. “Quando os holandeses chegaram no Brasil, eles pregavam muito a forma de convencer o outro a praticar uma religião. Essa prática foi proibida por anos no país. É complexo entender essa teologia da prosperidade, pois há aquele pensamento de que ajudando um, um dia serei ajudado”, explica Nadini.

Precisamos falar sobre Tabu

Apesar de serem temas delicados, os tabus em torno da religião precisam ser discutidos e levados a campo para que o indivíduo tenha consciência do mundo contemporâneo e quebre alguns padrões mentais. Dessa forma, a roda de conversa pôde aprofundar questões sensíveis a cada religião e a discussão de cada uma delas.

Walter Lippman explica que conforme nosso repertório de informações se amplia, nossos pseudoambientes se modificam e passamos a enxergar o mundo com outros olhos. Dessa forma, a opinião pública é forma pelos pseudoambientes criados na mente pelo indivíduo, ou seja, são as imagens do mundo (ou estereótipos) que cada ser humano possui em sua individualidade. Isso não significa que o indivíduo perdeu seus princípios, apenas possui mais propriedade sobre eles. Por isso a necessidade de debater sobre diferentes assuntos.

Dinheiro x Religião

Ao serem questionados sobre esses movimentos em algumas religiões, os alunos puderam expor os prós e contras de tal atitude, assim como compreender em que momento isso pode virar uma certa exploração do indivíduo. “Você tem que contribuir para a Igreja ficar de pé e auxiliar, inclusive, o sustento do líder”, argumenta Denise. “Mas não devemos extrapolar e extorquir recursos de alguém que muitas vezes não possui”, completa.

De acordo com Nadini, há uma certa inocência nas pessoas que estão inseridas nesse processo de exploração, justamente por se encontrar em um momento delicado e precisar de um apoio maior. Porém, também acredita que isso não pode ser generalizado. “Tem muito a ver com o ser humano que está mediando àquela relação com o dinheiro, e não necessariamente com a fé de ninguém”, afirma. ” É justo quando os recursos estão voltados para sustentar o trabalho de um líder e ajudar a comunidade e os próprios fiéis retribuírem. É preciso ter limites e não se aproveitar da fragilidade do próximo”, conclui.

Abusos sexuais: Segredos Revelados

A questão do abuso sexual nas Igrejas já virou inclusive, tema de filme. O longa Spotlight: Segredos Revelados, retrata a saga de um grupo de jornalistas que investiga as denúncias de abusos contra padres do mundo inteiro.

Apesar do filme ter feito grande sucesso e abrir os olhos de muitas pessoas, as questões de abusos nas Igrejas reaparecem até hoje. Casos são divulgados e mostram que a Igreja sufocou esses assuntos por anos. A roda pôde discutir a figura dos líderes em cada religião e a sexualidade, muitas vezes velada nesse âmbito. Além de explicar o surgimento de outros ditados como “quem chegar por último é a mulher do padre” e as críticas por traz disso.

Sexualidade e aceitação

Outra questão bastante discutida durante o diálogo dessa quarta foi a ideia de sexualidade no âmbito religioso. “Existe essa questão da não aceitação da sociedade. A Chechênia, por exemplo, possui, em 2018, campos de concentração para homossexuais. Nós temos entre os jovens muitas descobertas sexuais e o espaço religioso deveria ser de amor e acolhimento, pois a pessoa não vai deixar de ser que ela é”, afirma Nadini. “Isso não quer dizer que você precisa concordar com tal prática, apenas não pratique”, acrescenta.

Marcos, aluno do Complexo FMU, acredita que a Igreja enquanto espaço de acolhimento precisa quebrar esses preconceitos. “É preciso acolher, apoiar e promover palestras que incentivem o amor ao próximo”, destaca.

Questões culturais

O debate proporcionou a discussão entre praticas culturais com o intuito de desfazer julgamentos e entender que cada país possui seus princípios. “É claro que todos devem respeitar a cultura do outro, contanto que ninguém esteja sendo ferido”, afirma Nadini.

Temas como burca e mutilação feminina também foram alvos da discussão. Aluno de Direito da FMU pôde explicar um pouco sobre as leis em países que possuem práticas voltadas para a religião. “A questão da cultura está muito enraizada nisso tudo. No Brasil, por exemplo, o que norteia é a Igreja porque o catolicismo é muito forte no nosso país”, ressaltou.

No entanto a roda também abriu espaço para discutir questões que envolvem o estupro em diversos países. De acordo com uma matéria divulgada pela Revista The Economist, em janeiro de 2016, a Inglaterra estava proporcionando práticas educativas para refugiados. “Eles estavam fazendo palestras e rodas de conscientização para explicar porque que o homem não tem o domínio pelo corpo de uma mulher se ela estiver de decote ou de vestido, porque culturalmente o homem agride a mulher”, explica Nadini.

Amor acima de tudo

A roda de conversas concluiu que o amor é o que deve ser o princípio de toda religião. Não devemos excluir as pessoas por conta de sua cor, sexualidade ou classe social. O amor, enquanto religião universal, aproxima todos em um único objetivo: espalhar felicidade e alteridade. “Devemos amar a todos da mesma forma que amamos a nós mesmos”, afirma a aluna Denise. “Todos possuem direitos iguais”, conclui.

Dessa forma, o debate teve como reflexão a necessidade de prestar atenção ao inserir religião em qualquer assunto ou contexto. “É preciso desvincular a religião das escolas e questões políticas. Escola não é lugar de ensino religioso e a representatividade deve vir do Estado ao ressaltar a defesa e garantia de direitos”, afirma Nadini.

E chegou ao fim com o exercício de pensar sobre os aspectos que a nossa sociedade ainda precisa trabalhar. “A gente pode fazer a diferença quando, você homem, ouvir um comentário misógino sobre uma mulher e você não rir; quando você ouvir um comentário satirizando a religião do seu amigo e você disser que não tem graça satirizar a religião do outro. Então quando você empodera o preconceito do outro, você acaba aumentando esse processo. Precisamos motivar uma sociedade desconstruída”, concluiu Nadini.

 

[1] Aluna do quarto semestre de Jornalismo e monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom)

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