RESENHA: Jornalismo com H: A guerra que permaneceu na história

John Hersey mostra a força do jornalismo literário através de palavras comoventes e memoráveis

Por Ana Luiza Antunes [1]

Edilaine Felix [2]

A obra Hiroshima, do jornalista John Hersey, retrata a tragédia que ocorreu em Hiroshima e Nagasaki após o ataque das bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos, em agosto de 1945, aos olhos de seis sobreviventes que tiveram suas vidas traçadas pelos efeitos de mero interesses humanos.

Hiroshima é uma leitura obrigatória para todos os jornalistas que não só se interessam pelo jornalismo literário, mas para aqueles que querem aprender como se faz um bom jornalismo e uma excelente reportagem. John Hersey nos faz relembrar o momento mais aterrorizante da história do Japão e que ainda permanece nas veias e na pele daqueles que foram vítimas do ego alheio.

A obra é considerada a mais importante do século XX por trazer à tona o que de fato aconteceu com o Japão após o ataque e como o país conseguiu ressurgir das cinzas, como uma fênix, se tornando uma cidade completamente diferente por fora, mas que por dentro carrega severas cicatrizes.

Hiroshima introduz a narrativa do jornalismo literário moderno, o Novo Jornalismo. Incialmente publicada em uma edição especial do jornal The New Yorker como uma grande reportagem, ganhou sua versão em livro após Hersey concluir, 40 anos depois, os relatos mais comoventes da história. O artigo do jornal ganhou dimensões avassaladores pelo mundo todo, mas, principalmente, nos americanos por terem sido os autores dos maiores desastres mundiais.

Os hibakushas (nome que se dá para os sobreviventes da bomba), um reverendo, dois médicos, um padre jesuíta e duas mulheres, contam ao longo de cinco capítulos detalhes de como suas vidas sofreram diferentes desvios, em palavras que expressam a fragilidade da alma humana: pessoas que gritaram por ajuda, socorro e tentavam fugir do pior. Mais de cem mil pessoas foram mortas de forma cruel e desumana. Outras mais de 100 mil tiveram consequências em seus corpos pelo resto da vida.

As primeiras páginas do livro nos revelam a face daqueles que tem sua experiência cravada no tempo, apresentando para o leitor as pessoas que tiveram a noção do que o ser humano, cego pelo ego e pela política, é capaz de fazer. Hersey faz questão de descrever o quão perto estava cada um dos sobreviventes no epicentro da explosão, assim como o que estavam fazendo aos exatos oito horas e quinze minutos, horário em que o clarão silencioso tomou conta da cidade.

O autor ao longo do livro também nos revela sobre a cultura do povo japonês e a situação política do Japão. O país já havia se rendido e mesmo assim, foi atacado novamente em Nagasaki. O povo japonês teve que ouvir em tom de lamento, o discurso de derrota de seu imperador. Mesmo sofrendo, a população japonesa defendeu o governo por acreditar que o Japão tinha escolhido reinar a paz e salvar a humanidade após o desastre em suas duas cidades.

Hersey não nos poupa detalhes ao contar as consequências da bomba atômica em Hiroshima, desde os ferimentos físicos às dores emocionais por não conseguir ajudar o próximo. Das torturas que homens, mulheres e crianças sentiram até o fim da vida à luta para os sobreviventes reerguerem seus caminhos, John Hersey faz com que os depoimentos dos sobreviventes provoquem apatia no leitor, mas também arrepio por perceber que mesmo tendo completado 70 anos desde o dia 6 de agosto de 1945, as tensões atuais nas políticas externas provocam arrepios ainda piores.

O livro, com 160 páginas, prova que a força do jornalismo pode mudar opiniões, provocar manifestações e principalmente, reconhecer o poder que o ser humano possui, seja para destruir a humanidade ou para despertar a consciência dos indivíduos. Hiroshima é uma grande lição de jornalismo, de como fazer um bom livro reportagem e qual o tipo de escrita que o jornalismo literário aceita. Para você que não quer ser um jornalista superficial, essa leitura tem que fazer parte do seu repertório.

 

[1] Aluna do quarto semestre de Jornalismo e monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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