Bullying na faculdade existe? 

Alunos e ex-alunos contam sobre o que viveram no ensino superior

 

Texto e vídeo: Rachel de Brito [1]


Edilaine Felix [2]

 

Em 2009, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) realizou a Pesquisa sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar em 501 escolas de 27 estados brasileiros e descobriu que o preconceito e a discriminação não ocorre de maneira isolada nas escolas e não afeta apenas um ou poucos grupos sociais. O estudo apontou que 96,5% do preconceito é por necessidades especiais, 94,2% por fatores étnico-raciais, 93,5% por questões de gênero, 87,5% por aspectos socioeconômicos e 87,3% por orientação sexual. A pesquisa levanta um importante ponto sobre as atitudes discriminatórias dentro de ambientes sociais: a existência do bullying.

Conforme descreve a escritora do livro Me erra! Bullying eu  fora, psicóloga e psicoterapeuta, Zildinha Sequeira, o bullying é caracterizado como todos os atos de violência física ou psicológica que ocorrem de forma intencional, repetitiva e danosa contra pessoas que não tem condições de reagir às agressões. Segundo ela, o bullying se apresenta não apenas aos grupos minoritários, mas – sim – a toda e qualquer pessoa que não se encaixe em “padrões” estabelecidos por determinados grupos. “É preciso que fique claro que não é qualquer brincadeira que é bullying”, comenta a paraense que sempre faz questão de ressaltar a perversidade por detrás desses ataques.

Sem idade 

Zildinha explica que o bullying pode acontecer em qualquer idade, “as crianças podem ser muito cruéis umas com as outras. Mas, em tese, a perversidade do adulto, do universitário é pior, porque ela é mais elaborada”. A psicóloga ainda afirma que o perfil do adulto que pratica bullying na universidade apresenta certos aspectos de covardia. “É o perfil de uma pessoa que, para se sentir bem, para parecer maior, ela precisa desqualificar, ofender e humilhar alguém; porque ela sozinha não se garante”, diz.

As agressões cometidas e caracterizadas como “bullying” se apresentam de diversas formas e por diversos motivos. Para o agressor, o gatilho para cometer os ataques está relacionado a diferentes razões, entre elas, pode estar o fato de ter sofrido algum tipo de humilhação em outra fase da vida ou os valores pessoais adquiridos e repassados, como conta Zildinha.

Na sala de aula

Elizabete Stroppa (56) é formada em Direito e História. A primeira vez que enfrentou a intolerância religiosa na universidade foi em 1984. Porém, o preconceito não veio desacompanhado e, com ele, a mulher também conheceu o bullying. Tudo começou quando um dos professores de Elizabete afirmou que o mundo terminaria no ano 2000 e a aluna questionou quais eram os embasamentos bíblicos para a afirmação.

“Ainda ouço ele falar: ‘cadê a crentinha? Vem sentar perto do professor a menina que entende de Bíblia”, conta Elizabete. “No tempo em que eu estudei, o professor não era questionado. Hoje, existem espaços no uale podemos falar das nossas angústias, e creio que não devemos sofrer calados como eu fiz.”

Vanessa Caspon (26) é mestranda em Letras e sempre foi conhecida na universidade em que estuda pelas atividades extracurriculares. “Na graduação, fiz iniciação científica com uma orientadora mulher, mas quando entrei no mestrado passei a ser orientada por um homem.” E foi a partir de então que passou a sofrer bullying.

Vanessa conta que tudo começou como uma brincadeira e que não demorou muito para um aluno da graduação começar a difamá-la, dizendo que ela só podia ter entrado no programa porque tinha um caso com o orientador”.  A estudante ainda diz que devido às agressões teve, e ainda tem, fortes inseguranças intelectuais. “A frase ‘ela só pode ter ingressado no mestrado por estar dando para o orientador’, ainda martela na minha mente.”

C.S. (20) é estudante de Design e tem vivido a graduação como uma das fases mais difíceis da vida. “Essa época acabou com minha saúde mental”, conta. A garota, que prefere não ter o nome ou sobrenome revelados, explica que sofreu agressões psicológicas de um dos professores da universidade. “Eu não sei bem como começou e nem o porquê, mas outros funcionários da faculdade que trabalhavam com ele diziam que ele não gostava de alunos que não precisavam dele, que eram autossuficientes.” Mesmo em meio aos ataques, C.S., não teve apoio dos colegas, que riam das situações em que o professor a colocava. “Chegava, às vezes, a ser ridículo”.

Larissa Lisboa (21) acabou de se formar em Odontologia e leva consigo lembranças do bullying que sofreu enquanto estudava. Larissa engravidou no período em que cursava a graduação e conta como as agressões começaram: “no inicio eram perguntas de curiosidade normal e aceitável, depois começaram as brincadeiras irônicas e maldosas”. A jovem explica que, na época, os colegas de sala participavam das “brincadeiras” sem nenhuma intimidação e – por sentir vergonha e medo – não procurou ajuda da instituição de ensino. “Tinha receio de piorar as agressões.”

N.S. (como prefere se identificar) é estudante de jornalismo e presenciou situações de bullying com uma de suas colegas de classe. “Ela sempre foi uma menina bem dedicada, se mostrava muito interessada, só que ela provavelmente tinha alguns problemas mentais, acho que as pessoas não entenderam, e começaram a zoar com ela”, conta. A testemunha das agressões ainda explica que eram atitudes bem imaturas e que perduraram por todo o período em que a vítima estudou junto com a turma. “É engraçado que o bullying é uma coisa que existe, todo mundo sabe, mas a gente só se dá conta quando foge de todo limite”. N.S. ainda conta que devido ao bullying, a vítima do caso abandonou as aulas na faculdade.

Tem como parar?

Entre as vítimas é unânime que em caso de bullying, deve-se ter força para contornar a situação e “dar a volta por cima”. Contudo, o apoio de familiares e colegas é essencial para fortalecer quem está sofrendo com esses ataques e a intervenção da instituição de ensino superior também é um fator importante para a conscientização sobre esse problema que vem se arrastando desde o ensino básico – enquanto o ser humano ainda está tendo seu caráter forjado – até a vida adulta. Conforme afirma a coordenadora adjunto do curso de Jornalismo do FIAM-FAAM – Centro Universitário, Mayara Lobato: “é importante fazer um espaço para acolher as vítimas e conscientizar o agressor”.

 

Confira a reportagem em vídeo e a história completa da Larissa Lisboa:

 

[1] Aluna do quinto semestre de Jornalismo e estagiária da Agência Integrada de Comunicação (AICom)

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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