Do asfalto para a neve

ONG ensina modalidade de inverno para crianças e jovens na Zona Oeste de São Paulo

Por Thainá Maria [2]

Edilaine Felix [2]

Esquiar em São Paulo é algo totalmente fora do comum, ou até mesmo fora de cogitação. Não para Leandro Ribela, ex-atleta olímpico, e para os alunos do Ski na Rua. Desde 2012, Ribela promove gratuitamente aulas de Rollerski – um esqui adaptado com rodinhas que simula a prática do esqui cross-country no asfalto – para crianças e jovens moradores de comunidades vizinhas à Cidade Universitária, em São Paulo.

A ideia de criar o projeto nasceu de um desejo de Ribela: contribuir e mudar a realidade vivenciada no campus da Universidade de São Paulo – local em que costumava treinar. Segundo ele, era comum ver meninos vendendo água, guardando carros, enquanto algumas pessoas praticavam atividades físicas. “Essa realidade me incomodava. Aquelas crianças e adolescentes poderiam estar usando o espaço da universidade de uma maneira um pouco mais democrática, praticando uma atividade, sendo mais um ator e não um coadjuvante, trabalhando para levantar dinheiro para levar para casa”, diz.

Foi então que Ribela, em parceira com Alexandre Oliveira, criou o Ski na Rua. “Surgiu de maneira um pouco despretensiosa”, brinca. “O Alexandre tinha uns equipamentos em casa que eu podia colocar em uso, e a gente convidou quatro meninos para experimentar a modalidade”, explica.

Os resultados foram significativos e Ribela viu nas simples aulas de rollerski uma maneira de construir algo maior. Segundo ele, foi possível perceber em pouco tempo a mudança que a prática do esporte estava proporcionando àqueles quatro garotos. Os treinadores decidiram, então, tornar a simples ideia em um projeto social mais completo que trabalhasse com a metodologia de educação por meio do esporte.

Do projeto social surgiu a Associação Ski na Rua, formalizada como ONG em 2015. Os alunos foram se multiplicando e hoje somam quase 100 inscritos, entre crianças e jovens, meninos e meninas. E o trabalho que era desenvolvido por um pequeno grupo de pessoas que acreditavam na causa, hoje conta com colaboradores, voluntários e doadores que dão o suporte necessário para que a associação possa atender a comunidade.

Uma dessas pessoas é Gideoni Manoel do Nascimento, responsável pela manutenção dos equipamentos e por auxiliar nos treinos dos alunos. Deoni – como é conhecido no Ski na Rua – entrou para o projeto como aluno, integrando a segunda turma formada em 2013. O jovem, que trabalhava vendendo doces na USP, mal conhecia o esporte, tampouco havia praticado. Ele conta que sua experiência como aluno foi prazerosa. Chegou a participar de competições em São Carlos, interior de São Paulo, e em Ushuaia, na Argentina.

A oportunidade de Deoni trabalhar no Ski na Rua surgiu em 2014, de maneira espontânea. Para não precisar mais estocar os equipamentos em sua própria residência, Ribela alugou uma casa na comunidade São Remo, ao lado da USP, e pediu à Gideoni que cuidasse do local. “Como eu era o mais velho na turma, fiquei responsável por abrir e fechar a casinha. Comecei a tomar conta dos equipamentos, fazer a parte da manutenção e aos poucos foi surgindo à oportunidade de auxiliar na parte administrativa do projeto”, conta Deoni.

Para ele, trabalhar no projeto é muito gratificante, uma vez que é possível retribuir toda a ajuda que recebeu no projeto – não só no esporte, mas também na vida pessoal. “É uma experiência ótima, onde você ensina e também aprende”, conclui o jovem.

A associação também conta com o apoio da empresa alemã SRB Rollerskis – fabricante dos equipamentos utilizados nos treinamentos – que consiste em botas, roller, bastões e capacete de proteção. A cada ano, a empresa doa cerca de 30 equipamentos para o Ski na Rua. Por ser fabricado fora do Brasil, o material possui um valor elevado devido às taxas de exportação, chegando a custar mil reais cada.

ESPERANÇA DE MEDALHAS

Em fevereiro desse ano, Victor Santos representou o Brasil no esqui cross-country, o único brasileiro classificado para a modalidade, nos jogos olímpicos de inverno em PyeongChang, na Coréia do Sul. O que muitos não sabem é que Victor também estava representando a Associação Ski na Rua e a comunidade São Remo.

Victor entrou para o projeto na segunda turma, em 2013, depois que seu irmão – um dos quatros jovens convidados por Ribela – o incentivou a participar. O jovem não conhecia nenhuma modalidade de inverno, mas decidiu ir apenas por diversão.

E o que começou como lazer, tornou-se seu ganha pão. O jovem conta que nunca passou por sua cabeça a possibilidade de tornar-se um atleta olímpico. A partir do momento em que os resultados começaram a aparecer e a chance de se classificar para uma olímpiada ficar mais próxima, Victor percebeu que poderia mudar sua vida.

“Não foi uma coisa que veio do nada. Eu treinei por quatro anos para buscar a vaga”, Victor Santos, atleta olímpico

Atualmente, o jovem de 20 anos consegue viver apenas da prática do esporte – com a ajuda do governo e da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) -, mas no passado era preciso conciliar os estudos com o bico de flanelinha nas ruas de São Paulo. “Meus pais me pediam para estudar, trabalhar, porque não tinham muita esperança no esporte de inverno, mas depois que as coisas foram acontecendo, eu comecei a competir internacionalmente, eles começaram a acreditar e apoiar”, conta Victor.

Leandro Ribela conta que acompanhar esse processo na carreira de Victor foi recompensador. “Eu o conheci no primeiro contato dele com o rollerski e depois o acompanhei nos jogos olímpicos de inverno, então foi do primeiro momento até a conclusão disso – que não acabou por aqui -, mas desse primeiro grande momento da carreira dele”, diz o treinador.

ski na rua 2
Os treinos são realizados três vezes por semana na Universidade de São Paulo (USP). Crédito: Divulgação

Além de Victor, outros quatros brasileiros estiveram próximo da única vaga para a competição. Desses atletas, três eram alunos do Ski na Rua. Entre eles estava Lucas Lima, que ficou muito perto da classificação para os jogos – apenas 0.6 pontos atrás de Victor no ranking.

Ribela explica que ambos atletas possuem um futuro promissor na modalidade: “Os dois chegaram ao mesmo nível. O Lucas ainda mais novo, com apenas 16 anos, tem muito tempo pela frente de treino, pode chegar a resultados ainda melhores, assim como o Victor que tem 20 anos, ele é novo para a modalidade e com certeza vai continuar evoluindo para o próximo ciclo”.

Nessa edição dos jogos olímpicos, Victor garantiu a 110ª colocação na prova dos 15 quilômetros do esqui cross-country. No entanto, o jovem atleta já acumula em sua carreira o tricampeonato no Circuito Brasileiro de Rollerski – 2015, 2016 e 2017 -, é dono dos recordes brasileiros de Sprint, com 140,80 pontos, e do Distance, como 211,20 pontos.

Victor acredita que sua história pode influenciar outros jovens – não só no esqui cross-country, mas também em outros esportes. “Muitas pessoas mandam mensagens, garotos de vários lugares do Brasil. Independente do esporte, eles querem fazer como eu fiz, dedicar-se para conquistar os objetivos”, diz o jovem.

O atleta também pensa em ingressar na faculdade de educação física, para passar toda sua experiência no esporte para frente. E para Leandro, o desejo de Victor em retribuir ao próximo é o mais gratificante em seu trabalho. “Hoje, ele (Victor) tem muito claro isso na cabeça, seu papel diante de outros alunos do projeto, seu papel frente à comunidade.”

“Percebi que o conhecimento que eu possuía era muito útil para o desenvolvimento da modalidade no país”, Leandro Ribela, coordenador Esportivo.

Ribela competiu profissionalmente por 10 anos. Representou o Brasil em duas edições dos jogos olímpicos – Vancouver 2010, e Sochi 2014. Mas antes de se tornar um atleta, profissionalizou-se como treinador e trabalhou como instrutor em estações de esqui nos Estados Unidos.

Aos 34 anos, após os jogos olímpicos de Sochi, Ribela precisou escolher qual caminho seguiria: treinar para mais uma olimpíada, ou contribuir para o desenvolvimento do esporte no Brasil. “A vida de atleta tem um tempo limite”, afirma o treinador. “Eu comecei a perceber que sentia muito mais prazer passando tudo aquilo adiante, abrindo novos caminhos para uma nova geração, do que competindo para melhorar em performance e não atingir o resultado expressivo a nível mundial.”

Atualmente, além de comandar a Associação Ski na Rua, Ribela é coordenador do programa olímpico e paraolímpico na CBDN e lidera os núcleos de iniciação de esqui cross-country em São Paulo, Jundiaí, São Carlos e Santos. “A modalidade está crescendo. Nesse trabalho como coordenador, sem dúvida, ver o número de atletas competindo, o número de treinadores que eu contribuo para a capacitação, isso é uma realização profissional muito grande”, conclui Ribela.

INCLUSÃO PELO ESPORTE 

Por mais que o esqui cross-country seja essencial para o trabalho desenvolvido, formar atletas não é o objetivo principal do projeto. De acordo com Leandro Ribela, a missão da ONG é ultrapassar as fronteiras do esporte e influenciar a vida de todos – seja aluno, voluntário, colaboradores ou apoiadores.

A metodologia do Ski na Rua segue os quatro pilares da educação: aprender a ser, aprender a conhecer, aprender a conviver e aprender a fazer. Os valores do olimpismo – amizade, solidariedade, compreensão mútua e fair play (jogo limpo) –  também são abordados nas atividades elaboradas pelo projeto. “Nós buscamos tirar um pouco o foco que a comunidade tem, com rotinas que podem levá-los a outros caminhos, e mostrar que não existe só isso, que no esporte eles possuem outras opções”, afirma Reginaldo Gomes, educador físico da Associação.

Há casos de jovens que chegam ao projeto por meio de encaminhamento para cumprir horas em serviços comunitários. Segundo Gomes, existem relatos de adolescentes que ao entrar para o Ski na Rua se arrependem dos atos cometidos, chegando a dizer que não queriam ter entrado em caminhos errados. “É muito bom você ver pessoas querendo buscar novas oportunidades na vida, e que o projeto foi um caminho. Acho que não tem preço que pague essa transformação.”

CROSS-COUNTRY X ROLLERSKI 

O rollerski surgiu na década de 50, na Europa, como forma de os atletas de inverno treinar no verão. A modalidade apresenta similaridades com o esqui cross-country e também é uma opção de treinamento para atletas de países tropicais. O roller cresceu, a ponto de ganhar competições próprias. Em 2015, a Federação Internacional de Ski (FIS) integrou ambas modalidades, uma vez que a maioria dos atletas de inverno as praticavam. Agora, tanto o rollerski quanto o esqui cross-country contam pontos para o ranking mundial.

 

 

[1] Aluna do quarto semestre de Jornalismo

[2] Professora do curso de Jornalismo. Atua na Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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