Quando o “A” não é de amor

Não existe aviso prévio, mas existem sinais. Um relacionamento aparentemente saudável, pode esconder práticas abusivas. Entenda o começo, o meio e o fim.

Por: Andrea Paiva, Bruno Rodrigues, Felipe Aranda, Gabrielle Diniz, Giovanna Siqueira, Maryellen Alves, Monahra Vasconcelos [1]

Edilaine Felix e Nadini Lopes [2]

Você saberia identificar um relacionamento afetivo abusivo? Esse é um tipo de dúvida que assombra muitas pessoas e poucas conseguem descobrir, ou, quando descobrem, é tão tarde que não chegam nem a lutar pela felicidade que todos devem ter.

O Departamento de Ciências Humanas do Centro Universitário Franciscano da cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul, realizou um estudo para analisar o tipo de relacionamento que os jovens levam hoje em dia. A conclusão não foi boa. Os relacionamentos construídos hoje são instáveis, superficiais, individuais e descartáveis. Por mais que buscam o amor e a cumplicidade, esses sentimentos são distorcidos ao longo do caminho, seja ele pouco percorrido ou duradouro, como em um casamento.

Um relacionamento abusivo é caracterizado quando a vítima sente medo de possíveis reações que o agressor possa ter durante uma conversa ou brincadeira, quando a vítima está sempre errada no que fala, quando é calada, quando é impedida de realizar atividades em conjunto com amigos e familiares e também, quando muda seu estilo de vida, se afastando do mundo para que nada incomode o agressor. Se não seguir essas regras, a vítima é sempre punida.

Em todos os casos que apuramos, percebemos coincidências. A descoberta que a convivência não era saudável, aconteceu próximo ou no término do relacionamento; os companheiros agressores não demonstravam essa tendência no início do relacionamento e existia uma negação por parte da vítima quando pessoas próximas como amigos e família, comentavam ou alertavam sobre o comportamento estranho do agressor. Com esses pontos, a identificação precoce se torna difícil, principalmente no início da relação quando a afeição e os laços estão fortes.

Claudia da Silva, 47 anos e fisioterapeuta, aguentou por muito tempo seu relacionamento extremamente turbulento. Casada por 20 anos, morando no mesmo teto que o agressor, ela foi agredida fisicamente nos primeiros 15 dias dessa nova fase. “Com 15 dias de casada, eu já sofri uma agressão física. Mesmo assim, eu não o larguei. Eu achei que ele podia mudar, que naquele dia ele estava nervoso, que ele estava assim, sem dormir, porque ele é militar, então trabalhava muito. Eu pensei: ‘Não, talvez ele teve essa atitude agressiva assim por conta de falta de sono, de nervosismo’”.

Depois desse acontecimento, sua vida permaneceu dessa forma. Quando engravidou, Claudia optou por não trabalhar e seguir em casa após o nascimento da sua primeira filha, Giovanna, tornando-se totalmente dependente do agressor. Nesse momento, sofreu uma nova agressão. Dessa vez, envolvendo sua família e seus parentes, que moravam nas proximidades. Durante uma briga, o agressor a estrangulou, deixando marcas em seu pescoço e com os gritos, seu irmão mais velho surgiu no seu apartamento e interveio. Ocorreu a primeira separação.

Foram três meses até reatarem. “Voltei por vários motivos, primeiro pela minha filha que estava sofrendo demais com a ausência do pai. Ele tinha todos esses problemas como marido, porém, como pai, ele era excelente e a Giovanna estava sofrendo demais com a ausência do pai e eu dependia dele 100% porque não trabalhava”, explica Claudia.

Retornaram ao mesmo apartamento e Claudia achava que ainda o amava, mas aqui, já tinha entendido que esse não era mais o sentimento que tinha por ele. As agressões e ameaças continuaram e após um novo incidente envolvendo arma, ameaça de morte e novamente sua família, Claudia decidiu colocar um ponto final e pedir o divórcio.

O divórcio não foi aceito no primeiro momento. O agressor a perseguiu, ameaçou pedir a guarda das filhas e chegou a colocar uma câmera escondida no carro de Claudia. Quando o divórcio aconteceu, ela se afastou e foi morar com seus pais em Jundiaí, cidade do interior de São Paulo. Ficou oito meses lá e esse tempo foi crucial para recuperar sua confiança e retomar sua vida.

Os filhos também sofrem em uma relação abusiva

O caso de Claudia se enquadra em uma análise feita pelo Ministério Público de São Paulo, apontando que entre 80% e 83% dos filhos de mulheres agredidas, tornam-se vítimas diretas ou indiretas de violência. “Aproximadamente 60% das crianças, nesses casos, presenciam violência e em cerca de 20%, acabam se tornando vítimas diretas também”, relata a promotora Valéria Scarance. Esse envolvimento gerou sequelas no crescimento das filhas de Claudia. Giovanna, que presenciou diversos momentos de agressão e participou de alguns na tentativa de ajudar sua mãe, hoje é uma pessoa agressiva e demonstra, com dificuldade, sentimentos de afeto. A mais nova, Pietra, desenvolveu um transtorno alimentar e obesidade.

A estudante de Direito, Anita, 17 anos, começou a namorar muito cedo. Seu relacionamento foi marcado por agressões tanto física, quanto psicológica “Ele fazia um inferno na minha cabeça e eu achava que era normal, por ser meu primeiro relacionamento, eu pensava que era tranquilo. Relacionamento era assim”. Após o término do namoro, ela sofreu diversas ameaças, teve medo de andar na rua, completamente insegura, ainda mais por estudar na mesma escola que o agressor e não ter para onde fugir.

Devido a sua convivência diária com o ele, o dia a dia de Anita era regido por regras e tensões impostas por ele, envolvendo sua vestimenta, formas de agir e falar. Um dos casos mais lembrados pela vítima, foi na casa do agressor. Ele queria que Anita fosse embora, então, em um momento de raiva, a jogou da cama e ela bateu a cabeça no chão e em choque, permaneceu caída. Um outro momento foi na escola que frequentavam, quando o agressor novamente a atacou. “Aconteceu de uma vez ele me prensar na parede, me segurar pela boca e começou a me xingar muito, no meio da escola.” Anita chegou a procurar ajuda da coordenadora pedagógica de sua escola, já que ambos estudavam no mesmo lugar. O sentimento que teve foi que a escola não tomou partido de nenhum dos lados, pois era uma instituição particular. A medida que tomaram, foi impedir que o agressor se aproximasse da vítima dentro das dependências da instituição.

Relacionamentos homoafetivos não possuem estudos de violência

No Brasil, não há estatísticas sobre a violência em relacionamentos homoafetivos. Desta forma, fica mais difícil quantificar a situação como a de Yago Vitorio, 19 anos, ator, designer de moda e modelista. Durante um ano de relacionamento, Yago também sofreu agressões físicas e verbais. Ele relata uma das situações mais impactantes que aconteceu na casa do agressor. “Ele veio, era menor do que eu e eu comecei a me debater e bater nele. Ele pegou uma faca, estávamos na cozinha, ele pegou uma faca e falou: ‘Se você vir, eu te mato. Não estou ligando, vou te matar’.” Ainda não conseguindo enxergar o tipo de relacionamento que viviam, tentaram a reconciliação durante mais um mês, porém o fim já estava decretado.

Para Wander Silva, 39 anos, psicólogo, as vítimas de relacionamento afetivo abusivo só procuram ajuda de profissionais quando de fato não aguentam mais. “Elas buscam esconder o tempo todo por conta de uma manutenção da imagem social”, explica. Para a vítima, é sempre um momento, algo que ela acha ser transitório, então, ao invés de enfrentá-lo, ela sublima. Sobre a mente do agressor, ele é aquele quem a psicologia diz ter “personalidade perversa”, a pessoa que comete seus delitos sem ter a consciência real sobre o mal deles.

O prazer em ver o outro submisso e a convicção de estar fazendo a coisa certa, faz com que o agressor acredite que está fazendo o melhor, seja para sua família, trabalho ou meio social em que vive. “Alguém que se sente no poder, podendo ser um marido, que paga as contas de casa, um chefe por pagar o salário do funcionário”, complementa.

A necessidade de estar no controle, de mandar, de ter a posse da outra pessoa, do ciúme em excesso, as mudanças no comportamento que fogem do normal, podem e possivelmente são indícios que o seu relacionamento está passando de saudável para abusivo. O agressor já é alguém que traz essas vestes. De relacionamentos doentios, que tendem ao descontrole e que não sabem se relacionar. Essas pessoas não tem um limite, estão centradas dentro do que é importante para elas. Podem até gostar de seus companheiros, mas estar no poder e no controle de tudo é algo fundamental na mente delas.

Assim como a vítima, o agressor também precisa de tratamento e ajuda. É importante mostrar para eles como é legal você conquistar alguém sem que precise arquitetar, sem precisar ter posse e controle sobre o outro. Vítimas de um relacionamento abusivo tendem a ter uma mudança de comportamento, segundo o psicólogo. Elas geralmente se tornam pessoas introspectivas e por muitas vezes, demonstram insegurança e evitam se expor.

“Nessa hora que é bom um amigo ou um parente próximo, perguntar se está tudo bem, mas de uma forma que não seja muito evasiva, para que aos poucos, ele consiga se abrir e aí sim, dar abertura para procurar ajuda, que é imprescindível.” É importante que a vítima entenda o limite e como é bom ser livre. Os especialistas ao tratarem vítimas desses casos, potencializam que elas não precisam estarem presas nisso.

A psicóloga Sandra Fugikawa, compartilhou conosco um fluxograma que detalha o ciclo da violência. Veja:

Ciclo da Violência

Ela ainda explica que obstáculos de ordem interna (como sentimentos de medo, vergonha, não julgar certo envolver terceiros em assuntos do seu relacionamento privado, desconhecimento dos seus direitos e falta de informação) e externa (como o convívio social, sendo pressões para manter o casamento, insegurança econômica, atitudes negativas e contextos sociais violentos), inibem a vítima de procurar ajuda.

Quando se fala de relacionamento abusivo, muitos pensam apenas em agressões físicas, mas as agressões psicológicas são as que mais ficam, derivadas desses e de vários outros atos. Procurar ajuda é o primeiro caminho para a liberdade, seja com pessoas de confiança ou profissionais. Ambos pensam por fora e conseguem guiar as vítimas nesse processo final que, normalmente, é difícil e dolorido.

As vítimas que aceitaram conversar conosco, fizeram isso, porém, não chegaram a formalizar denúncias e esse é um caminho também importante, porque o agressor é um criminoso e existem leis que punem seus atos.

De acordo com os últimos números divulgados pelo Ministério Público de São Paulo sobre o Ligue 180, um dos principais canais para denúncias e gratuito, houve um aumento de 51% no número de denúncias em relação a 2015, com cerca de 1,3 milhões de atendimento no total e média de três mil por dia. Em 65% dos casos, a violência foi praticada por homens contra as companheiras e em 38% deles, o relacionamento entre a vítima e o agressor tem mais de 10 anos de duração. É preciso ter forças para denunciar a pessoa que você amou, mas que no momento, só causa tristeza. Essa prática precisa mudar e nós podemos fazer isso.

Confira o vídeo:

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