A agricultura de decisão e a tecnologia no melhoramento da produção

Conheça como a agricultura brasileira tem desenvolvido seu potencial tecnológico para produzir com eficiência

Por Evandro Almeida Jr. [1]

SÃO PAULO – Ano após ano, a agricultura brasileira se consolida como uma das mais produtivas do mundo, levando o País ao topo da produção de mercadorias como soja, café, milho, laranja e carnes. O que poucos sabem é que, para a comida chegar ao prato dos brasileiros e estrangeiros, há inovações tecnológicas em todas as pontas da cadeia produtiva para dar mais eficiência a uma indústria que representa quase 25% do PIB nacional: o agronegócio.

Se o Brasil já é uma potência agrícola mundial com as deficiências que têm, poderia ser muito melhor com melhorias no escoamento de grãos, maior adoção de tecnologias produtiva e menos burocracia.

Além disso, apenas 7,6% da área do Brasil é ocupada com lavouras, segundo a agência especial norte-americana NASA. O que indica um longo caminho para aumentar ainda mais o protagonismo do País no cenário internacional. O estudo também revela que o Brasil preserva a vegetação nativa em 66% da área. Com isso, produtores trabalhando para conciliar agricultura, pecuária e sustentabilidade têm colocado o Brasil num patamar cada vez mais elevado no mercado de alimentos.

Convergência tecnológica e de conhecimentos na agricultura

Um dos grandes desafios dos agricultores é aumentar o uso de tecnologias que melhorem a produtividade e, consequentemente, a renda. Por isso, ao redor do País, instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) trabalham para melhorar a eficiência do agronegócio brasileiro e dar mais opções de cultivo e tecnologias para os agricultores.

Foi pensando nisso que o IAC desenvolveu, após doze anos, variedades de feijão mais resistentes à ferrugem, principal praga da cultura, e mais tolerantes às mudanças climáticas. As variedades Nuance e Tigre são resultados da pesquisa com foco em mercado.

Feijão Evandro

O Nuance possui a cor creme e seu sabor é parecido com o feijão carioca, mais consumido no Brasil, mas se diferencia devido às listras cor de vinho claro e seu formato redondo. Essa variedade é desejada pelo mercado asiático. Já o Tigre, comercializado para EUA e Canadá, é mais doce e tem uma coloração creme semelhante ao carioca.

“O agricultor pensa no mercado interno e fica muitas vezes dependente dele. Nós fornecemos uma alternativa”, explica Carlos Aparecido Fernandes, técnico de apoio à pesquisa do IAC. “Com isso, o Brasil consegue explorar os nichos de mercado e vender sua produção a locais de alto consumo”, justifica Carlos.

A pesquisadora e economista do IAC, Luiza Capanema, explica que as variedades podem ajudar o produtor a ter mais renda e produtividade. “Ele não fica à mercê do consumo interno, pois quando tem excesso, o preço cai”, fala Luiza.

GRafico Evandro

O que leva mais tempo? Um software de celular ou um grão? Levamos 12 anos para estudar uma demanda, acho que há uma falta de reconhecimento 

(Luiza Capanema economista e pesquisadora do IAC)

A pesquisa influenciando o resultado final

Os feijões, assim como outros grãos como soja e milho, sofrem mudanças genéticas para que suportem, principalmente, variações climáticas e pragas. Nesse cenário, as pesquisas tentam melhorar desde a saúde da planta e até a do consumidor, acrescentando mais nutrientes às variedades.

A biologia avançada tem a capacidade de sintetizar sequências de DNA com alta eficiência e de fazer adições nos genes, permitindo o desenvolvimento de plantas mais resistentes. Com essas mudanças, os grãos assumem posturas diferentes de sua natureza suportando elevações de temperatura e de gás carbônico (CO2) na atmosfera. Mas não só na semente essa mudança de gene é realizada, nos animais foi bem-sucedida.

Café Evandro
Café cultivado no IAC para utilização de genoma em outras variedades. (Crédito: Evandro Almeida Jr.)

Agregação de valor nas cadeias produtivas agrícolas

Para produzir os grãos e preparar o terreno para a boiada, os tratores são fundamentais para os agricultores. Com ares de fordismo mesclado com os robôs do toyotismo, a produção em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, evidencia como o agronegócio e a tecnologia fomentam a economia brasileira.

No interior da fábrica da Valtra, do grupo AGCO, cada trator leva menos de 13 minutos para ficar pronto — são em média trinta e cinco destes por dia, explica Douglas Moleiro, líder de manufatura da empresa.

caminhão 2 Evandro
Tratores Valtra no pátio da fábrica (Crédito: Evandro Almeida Jr)

 

 A média de vida útil de um trator não é medida pelos anos como veículos comuns, mas sim por horas. Em média cerca de 20 mil horas trabalhadas significam que o trator pede aposentadoria para outro mais novo assumir seu posto.

Enquanto caminhava pela barulhenta fábrica vendo centenas de pessoas trabalhando a todo o momento montando tratores uma cena chamou atenção. Não eram os robôs autônomos entregando peças pelo chão da fábrica, muito menos os braços mecânicos parafusando peças ou os softwares de logística interna nos monitores iguais a bolsa de valores da Bovespa. Foi um óculos. Item comum nas fábricas para evitar acidentes e no cotidiano das grandes cidades. Mas esse era diferente, ou melhor, inteligente.

É a Wearable Technology (Tecnologia Vestível) na agricultura. O Google Glass usado por Robson Cantelli, auditor de qualidade da AGCO, demonstra os passos largos que a tecnologia tem dado no setor.  Isso torna mais nítido os investimentos da AGCO de 4% no faturamento global — no ano de 2017 foram US$ 323 milhões — em novas tecnologias para o campo.

O Glass tira das mãos do funcionário a prancheta, a caneta e até mesmo o computador. Aliás, está em seus olhos. Um pequeno cristal quadrado, no lado direito do olho, na frente da lente, exibe a imagem em toda a esfera do vidro. As imagens se movimentam com o passar do dedo na haste direita do óculos ou por comando de voz.

Sem usá-lo, as imagens ficam minúsculas, mas, quando colocado, a imaginação se converte em realidade. Manoel Gilberto Silva Filho, gerente de melhoramento de processos da AGCO do Brasil, explica a tecnologia do Glass:

Áudio: https://aicomfiam.files.wordpress.com/2018/05/tecnologia-g-glass1.mp3

A fábrica investiu no Google Glass para checar a qualidade das peças montadas no trator. O comando de voz se converte em texto escrevendo os relatórios e tirando fotos dos materiais aos olhos de Robson. O conteúdo é enviado para um sistema de armazenamento em nuvem via rede Wi-Fi. Todos os recursos cabem em 43 gramas. Segundo o Google, a bateria dura “um dia inteiro de trabalho” — não especificando horas.

Implantado em fevereiro na fábrica em Mogi das Cruzes, Robson elogia a ferramenta: “Ela facilita demais. Antes, eram muitas coisas para anotar. Agora dou o comando e já ele tira foto com as considerações”. Manoel Gilberto explica como o software otimiza o tempo na produção:

Áudio: https://aicomfiam.files.wordpress.com/2018/05/funcionamento-glass3.mp3

Agricultura de decisão e o desafio de produzir mais com menos

Esse é o termo que Julio Reghelin, gerente de engenharia de produto da AGCO do Brasil, usa ao falar das tecnologias do campo. “Mudamos para a agricultura de decisão e não de precisão como antes”, explica. O termo decisão se baseia em perceber o que precisa ser feito para ter uma lavoura com menos perda e mais retorno financeira.

Sistemas como o VDrive, que faz um controle populacional de sementes, buscam o espaçamento ideal permitindo plantar em terrenos íngremes e em curvas. “Economizar semente é o sonho do agricultor. Gastar dez centavos (em média) por semente plantando decisivamente faz o retorno ser muito superior ao de antes”, explica Reghelin.

Segundo ele, um bom plantio, com economia de insumos e processos eficientes, é o ponto crucial para o sucesso de uma lavoura.

As commodities, que seguraram nossa economia nos últimos anos, não são apenas produtos simples. Há um valor agregado nos produtos, desde a semente até a máquina que colhe e os softwares que analisam os dados 

(Ana Andrade diretora de assuntos governamentais da AGCO do Brasil)

A Horus Aeronaves, empresa criada na Universidade Federal de Santa Catarina, chegou para auxiliar o agricultor processando as imagens de cima em uma plataforma online.Os registros são feitos sobrevoando o campo com drones identificando falhas para uma produção mais decisiva e precisa.

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Reprodução: Horus Aeronaves

Conforme o engenheiro agrônomo da Horus, Rafael Kuhl, a preocupação está em sanar problemas e buscar resolvê-los de forma eficiente. “Entendemos que o produtor não precisa de um mapa, mas sim da informação que esse mapa pode nos dar”, explica. Com essas informações em mãos, o produtor consegue realizar a gestão das variabilidades do campo.

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Reprodução: Horus Aeronaves

Dentre as soluções que o grupo oferece aos seus mais de 500 clientes em todo o Brasil está a contabilização das plantas, análise da saúde da vegetação, identificação e localização de plantas daninhas.

Problemas no escoamento da produção brasileira

Afinal como recolher essa produção para as mesas mundo afora? Antonio Galvan, presidente da Aprosoja-MT fala sobre as preocupações que o agricultor tem situação das vias e explica quais são seus estados:

Áudio: https://aicomfiam.files.wordpress.com/2018/05/preocupac3a7c3a3o-vias.mp3

Devido aos problemas mencionados, ele acredita que há vias alternativas para melhorar o escoamento das produções:

Áudio: https://aicomfiam.files.wordpress.com/2018/05/logistica1.mp3

Caminho

O Brasil tem se mostrado eficiente na utilização de novas tecnologias para o campo. Instituições reconhecidas internacionalmente por suas pesquisas, tratores modernos, óculos inteligentes, softwares e drones ajudam a criar a agricultura de decisão. Cada vez mais precisa para colocar nas mesas do mundo inteiro comida de boa qualidade.

 

[1] Aluno do sétimo semestre de Jornalismo do FIAM-FAAM – Centro Universitário

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