Agricultura dinamiza economia no interior de SP

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Evandro Almeida Jr.*

O mercado da agricultura brasileira foi um dos poucos que teve alta na produção e crescimento econômico em meio à recessão no Brasil. Num país com solo fértil, esse recurso foi bem explorado e trouxe benefícios. Desde soja até o açúcar e o café, chegando, também, ao mercado das flores. Sim, o mercado da floricultura brasileira teve um papel fundamental na economia da agricultura brasileira, principalmente no interior paulista.

Mercado de flores

A cooperativa Veiling Holambra, localizada na cidade de Santo Antônio de Posse, região da grande Campinas, criada por imigrantes holandeses nos anos 80, é um exemplo de como o mercado de flores cresce. Funciona como cooperativa, ou seja, são inúmeras empresas que se associam a ela com um objetivo comum: atender as demandas do mercado.

No ano de 2016, o crescimento da Veiling comparado ao ano anterior foi de 8%. Todavia, neste ano, até o mês de junho, já foi alcançado cerca de 13% de crescimento, ou seja, se continuar nesse ritmo o salto poderá dobrar.

A cooperativa inovou no mercado de flores brasileiro, trazendo sua tecnologia das empresas holandesas. Funciona como um pregão da bolsa de valores. Os leilões funcionam das 7 às 11 da manhã e tudo é automatizado – mesas com redes interligadas. Os produtores pagam em torno de 10% ao leilão de taxa dos produtos vendidos.

Sabe aquele ritmo frenético que vemos em filmes como Wall Street: O dinheiro nunca dorme (com Michael Douglas) ou O Lobo de Wall Street (com Leonardo DiCaprio)? Ao invés de ações, são vendidas flores. Lances e mais lances por lotes ou pacotes.

flores
Balcão de vendas. Foto: Evandro Almeida Jr.

São comercializadas cerca de 3.500 variedades de flores, sendo seu carro-chefe a Falenopsis — Orquídea Borboleta. Cerca de 10 milhões de unidades dela são vendidas por ano, em média. “Fazemos um mix ou one stop para a compra de todo tipo de flor aqui na Veiling”, relata André Van Kruijssen, holandês, diretor geral da empresa.

“Só há essa cooperativa de flores em todo o continente americano”, afirma André. Seus clientes são grandes redes de supermercados, como o Carrefour e o Grupo Pão-de-Açúcar. Se você já comprou alguma flor em uma dessas redes, deve ter consumido alguma flor que passou pela Veiling em algum momento.

Impacto regional

A Veiling tem cerca de 400 funcionários que residem na região e que trabalham diretamente na empresa. Como ela cede espaço para os compradores negociarem suas mercadorias, centenas de outros trabalhadores são impactados.

Todo dia, cerca de três mil pessoas passam pela sede da Veiling e outras onze mil trabalham para empresas representadas diariamente. Quando parece muito, cerca de 60 mil pessoas são impactadas indiretamente pelo ramo das flores e outras 20 mil diretamente. Ou seja, pouco menos de 100 mil pessoas trabalham ou têm suas economias ligadas à floricultura, segundo informou o diretor André. Isso só na região da Grande Campinas, no estado de São Paulo.

O impacto financeiro é multimilionário, conforme relatou André. Cerca de R$ 700 milhões foi o lucro para os produtores associados à Veiling. Outros 60 milhões ficaram para a manutenção da cooperativa, que também inova e emprega centenas de pessoas ano a ano.

Para que os clientes atinjam determinada cifra, a cooperativa aluga asas, boxes e escritórios para produtores, assim como câmaras frias para flores climatizadas, como as rosas. “Investimos na tecnologia para nos mantermos competitivos no mercado, porque em dez anos não existiríamos sem inovação” ressalta Van Kruijssen.

“O Brasil tem uma burocracia muito grande que atrapalha o desenvolvimento e crescimento da indústria de fores”, ressalta André. Concordando com ele, o professor doutor da Unicamp e escritor de economia Fabrício Augusto de Oliveira afirma que o cenário nacional combina “um elevado custo-país, com o câmbio sobrevalorizado, uma carga tributária abusiva e a precariedade da infraestrutura econômica com muitas incertezas que predominam sobre a situação fiscal do Estado, bem como sobre o andamento das reformas propostas para equacioná-la, juntamente com a fraqueza da demanda por consumo.”

O incentivo na região se dá com funcionários que recebem treinamento para aprimoramento, além da criação de universidades especializadas na floricultura, assim como a criação de hotéis e restaurantes. A prioridade da Veiling é que a região cresça economicamente e seja reconhecida por isso. Não à toa, Holambra é vista nacionalmente como a “cidade das flores”.

História da Veiling

Imigrantes holandeses vieram ao Brasil, a convite do governo brasileiro, em 1948, pós-segunda Guerra Mundial, para produzir leite e queijo. Entretanto, as vacas vindas da Holanda morreram devido ao clima tropical brasileiro.

Após fracassos com laticínios em São Paulo, essa indústria passou para o Sul do país. Apenas em 1980, por conta da crise econômica na Holanda, foi criada a cooperativa.

Cooperativismo

É um modelo de negócio que pode unir empresas ou produtores, a fim de dividir os lucros entre os participantes. Só no Brasil, as cooperativas exportaram cerca de 5 bilhões de dólares, valor considerável para o país. Emprega apenas na agropecuária cerca de 188 mil pessoas, segundo dados do ministério da Fazenda.

Agronegócio do açúcar

A bolsa de valores do Brasil, BM&FBovespa ou B3, que constantemente vemos nos noticiários sobre alta do dólar e queda no valor do preço do barril de petróleo, também negocia commodities — palavra inglesa que deriva do ‘produto comum’ que todas as nações compram e estocam sem ter grandes tecnologias para mantê-las.

Entre as commodities exportadas do Brasil os derivados do açúcar chamam atenção por seus impactos no interior paulista. A Usina de Iracemápolis, que pertence ao Grupo São Martinho (GSM), é uma forte produtora do estado. A cidade de Iracemápolis veio depois da instalação da usina, como consequência de seu desenvolvimento.

A usina é pautada em eficiência para diminuir custos e aumentar a produção. Cerca de um terço da cana de açúcar que chega à usina é de fornecedores externos. O caminhão chega a determinado local com a caçamba; logo em seguida, uma máquina já a ergue tirando a cana e por conseguinte lavando e cortando para industrializá-la.

GSM
Restos de cana de açúcar na Usina Iracemápolis. Foto: Evandro Almeida Jr.

Ivan Pedroso, engenheiro químico da Usina de Iracemápolis, conta que o GSM possui hectares de plantações de cana de açúcar em todo o estado de São Paulo. A eficiência é decorrente de investimento tecnológico. No período da safra — abril a novembro — a colheita nas terras do grupo é 100% mecanizada.

No que diz respeito ao plantio, durante a entressafra — dezembro a março — 73% é mecanizado, pois ainda há aperfeiçoamento de novos equipamentos que estão sendo elaborados em parceira com a fabricante de tratores Case, em Sorocaba. Na iniciativa, as empresas testam as colheitadeiras e fornecem dados para melhora. Toda a frota da GSM é composta de carros Case.

“A agricultura brasileira certamente não é de baixo conteúdo tecnológico”, explica em entrevista à reportagem Otaviano Canuto, Diretor Executivo do Banco Mundial em Washington, Estados Unidos, para assuntos dos países Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Suriname, Filipinas e Trinidad e Tobago.

Mecanizando o processo, desde 2012 a usina não queima a cana de açúcar. A ação reduz impactos sobre o meio ambiente, pois não há erosão do solo — desgaste de minerais da terra, deixando-a futuramente improdutiva.

Pedroso afirma que “cerca de 80% do açúcar produzido é exportado”. O Grupo São Martinho prefere a produção do açúcar à produção de etanol ou diesel — ambos combustíveis para automotores — porque o rendimento financeiro é mais alto. Cerca de 60% da produção na Usina de Iracemápolis são voltados para o açúcar cristal.

Segundo dados da São Martinho, o valor da saca de 50 kg de açúcar cristal é de R$ 69,83 (valor negociado em 23/06/2017). Do litro de álcool anidro (combustível), R$ 1,49.

O açúcar cristal se encaixa no perfil de commodities e é negociado na BM&FBovespa. A vantagem descrita pela bolsa de valores é de ser um produto com transparência de preços nas negociações em plataformas eletrônicas.

Cenário brasileiro

A economia brasileira começou a crescer e a projeção do Produto Interno Bruto (PIB), soma de toda riqueza produzida pelo país, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), é de 0,5% para 2017 (veja tabela abaixo).

tabela

No ano passado, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), cerca de 43% das exportações brasileiras foram de commodities“Commodities não são necessariamente um produto de exportação de baixo conteúdo tecnológico. O desempenho do ano passado de fato também refletiu melhora de preços de commodities. Mas o que importa acima de tudo é o aumento de produtividade”, afirma Canuto.

O desenvolvimento na agricultura brasileira cresce ano após ano, graças ao aumento da demanda externa. Cabe aos investidores manterem esse patamar para que o Brasil continue aprimorando sua estrutura interna e tecnológica.

 

* Aluno do 5º semestre do curso de Jornalismo do FIAM-FAAM Centro Universitário.

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